quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Haja coração

esse quase é que me mata!

Hoje fui mandar parabéns pra uma amiga no Facebook e comecei a chorar. Estava assistindo o Saia Justa e quase beijei a televisão quando vi um cão salsicha na tela. Não é TPM, não é carência. É saudade. Uma saudade grande, funda e boba como até então era desconhecida por mim mesma.

Eu sou ansiosa e corto um dobrado pra dar conta de não me atropelar, sofrer por antecipação etc e tal. Mas ontem o Sidnei chegou em casa chateado, ansioso, deitou no chão e ficou calado pensando na vida. Ele que é adepto do deboísmo, ele que tem o ritmo menos acelerado que o meu. Então bate uma sensação de como se estivéssemos  participando do BBB, e quem já viu o programa sabe como é que o reality fica sem graça nas últimas semanas. Os participantes não aguentam mais, Pedro Bial desce o verbo acelerando a todo momento e comentando a chegada da grande final. E eu me sinto chegando nessa grande final onde cada abraço amigo que eu vou dar vale o meio milhão.

É uma loucura tudo isso. De um lado os novos amigos, o cotidiano simples, as comidas, o chiado do inglês que nem assusta mais, as crianças na ONG me perguntando se vou embora pra sempre. Nunca é fácil dizer adeus. De outro, é mais um vídeo de baile que a gente vê e conta os segundos pra tá junto com o pessoal, é saber que ao desembarcar do avião vai rolar pastel e caldo de cana na feira, é a certeza de poder ver meu Tutu tocar, participar dos aniversários de todos esses meus amigos, é passar no Extra pra comprar cerveja, grudar na Diná até ela entender e sentir que eu voltei. É sentir o cheiro odioso do cigarro da minha mãe e adorar!

 Mas Nathy, ainda faltam 3 semanas, caramba!

Faltam 3 semanas, e é isso que a gente não consegue mais segurar. É uma mistura de saber que a vida vai mudar completamente em pouco tempo, é ter que montar caixa e embalar tudo o que der pra levar, mas pensando o que faremos nos primeiros dias quando chegarmos lá. Como é que vamos enxergar aquela velha São Paulo? Os tempos de crise, o #ForaTemer diário, o desemprego, mas é acima de tudo saber que logo mais estaremos em Terra Brasilis, ah meu país eu te amo demais!

O corpo vai se dividindo. Enquanto faço uma jantinha esperta minha cabeça tá em São Paulo. O outono chegou na Inglaterra e sinto o vento frio quando a noite chega, mas penso que o horário maravilhoso de verão tá chegando lá e mal posso esperar pra usar todos os meus vestidos que ficaram guardados. É quase verão de novo, porra!

 Ainda tem um tempo pela frente e eu tô tentando me segurar, finalizar tudo bem direitinho, firmar o que ainda tem para ser firmado, mas a ficha já vem caindo. E morar fora do país é tão profundo pra nós que essa saudade, essa singularidade toda de se ver fora de uma vida que está quase voltando me deixa sensível. 

Mandei o Feliz Aniversário e comecei a chorar. Um chorinho com sensação de "Tá acabando, segura firme", mas não sem chorar também por "Caralho Inglaterra, mano e agora? Agora que fizemos uma amizade a gente vai se separar, tá?".


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Eu, Faxineira

                            "o máximo que eu pago é 6 libra a hora, mas minha casa é bem pequena"    


A vida ganha novos significados à medida em que é posta à prova. E eu vim para a Inglaterra decidida a fazer o que tivesse que ser feito para descolar alguns pounds e aprender a falar inglês. Foi assim no trabalho voluntario, foi assim pesquisando links e links na internet sobre colleges e foi assim quando rolou a primeira faxina.

Eu adoro limpar a casa, mas a  parada muda de figura quando você passa a ser responsável pela limpeza da casa dos outros. Esse lance de "ai mas eu fiz faculdade para limpar a privada alheia", já caiu por terra quando bati forte no peito dizendo que seria vendedora de roupas caso precisasse ser. O dinheiro sempre chega quando você se movimenta. Eu não me sinto nem um pouco humilhada em fazer faxina aqui, de verdade mesmo. E como jornalista tem uma parte desse trabalho que é poder viver um pouco a vida daqueles que moram ali. Ao invés de fazer uma matéria, você entra na vida literalmente daquela pessoa, sabendo como ela mora, como guarda as coisas na geladeira, como dorme e como caga.

Essa parte com certeza é a melhor de todo o trabalho pesado que começa logo no começo. De cara, cozinha e banheiro são as partes mais importantes das casas e é justamente onde as "patroas" querem entrar e sentir o cheiro da limpeza, o brilho dos azulejos, as paredes sem gordura e etc. E eu não hesito em trabalhar com perfeição. Mas as minhas costas reclamam no final do dia. E ainda tem a parte que nunca falha de, apesar de não me sentir humilhada, saber que sou parte da máquina da exploração capitalista. Mas é exploração mesmo: no Brasil as faxineiras chegam cedo e saem à tarde e têm tempo para realizar o trabalho. Aqui eles pagam por horas, geralmente 2 horas por dia, as casas são muito grandes, e como a pegada da cidade é outra, tem o agravante da dona da casa acompanhar literalmente a faxina. Então eu tenho 2 horas para limpar cada cômodo de um sobrado enorme com uma mulher no meu pescoço acelerando meus passos. Imagina a vida de quem precisa fazer 4 casas por dia pra no final do mês conseguir pagar o aluguel?

Se o dinheiro vale a pena? Sempre vale ter dinheiro para gastar com o que você quiser, mas pensando friamente, o trabalho das faxineiras é desvalorizado e agora eu entendo quando a minha faxineira lá do Brasil me contava seus causos. É foda.  O filme que Horas ela Volta? vai passando na minha cabeça. O cara te oferece água com um ar de "olha só como eu sou legal", mas não dá uma libra a mais se você ficar 40 minutos a mais finalizando a parada. E tem os mais drásticos que ao badalar das 15h simplesmente pedem pra eu parar aquilo ali e ir embora. Nem mais 10 centavos, nem mais um minuto. Get out. Eu me sinto naquele filme do Chaplin em que ele sai apertando botões sem nem saber mais o que está fazendo.

Como eu disse: a vida ganha um novo significado à medida em que é posta a prova. Eu ali esfregando o rejunte do box na casa de uma família Paquistanesa, e sentindo uma coisa forte de que eu posso fazer o que eu quiser com a minha vida, que sempre vou dar um jeito por mais puxado que seja. Sinto vergonha das tantas vezes em que ao ver que a faxineira tinha acabado de lavar a louça eu pegava um café e "deixava só mais um copinho". Ou em relembrar quantas vezes já ouvi "amanhã a faxineira vai vir então não vou nem tirar esse prato daqui, to pagando mesmo". A exploração é foda porque quem explora às vezes nem se da conta disso e o explorado acha que ele tem a obrigação de lavar 5x a pia se precisar porque, ora, eles está sendo pago para isso. Será? Será que esse lance de vou sair do Brasil e ser faxineira fora porque pelo menos ganharei em Dólar ou Euro vale a pena realmente?

Avanço pro vidro do box e me deparo com um papel grudado com durex: "Cante para Allah enquanto toma banho". Caraca! Quando na minha vida poderia imaginar que estaria vivendo isso? A vida é foda, mesmo no esforço, mesmo suada e com fome. Tento interpretar a oração da hora do banho que está em inglês e paquistanês. Do banheiro escuto a dona da casa deitada na cama assistindo algum programa em árabe e penso como a minha vida é mais interessante que a dela que não tem cor, não tem caipirinha, não tem nada além de servir ao seu marido e se preocupar com o calendário de afazeres que a "cleaner" tem para fazer até.... dezembro!

Na sala, empurro os enormes narguiles para esfregar o chão. Não sei se todo mundo sabe, mas na Inglaterra não tem rodo o que dificulta 4x mais a tarefa de limpar o chão. O "mopy", um esfregão daqueles que o povo usa no Mcdonalds, vem com um balde acoplado e para secar o chão tem que torcê-lo um milhão de vezes. Peço arrego e pergunto se ela tem algum pano de chão. Então a dona da casa solta a informação que tem vários ali guardados no armário, que na Tanzânia, seu país de origem, todo mundo faz a faxina com rodo e pano de chão, e que ela foi faxineira a vida toda. Então tá explicado, né? "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor", já setenciou Paulo Freire. Era por isso que ela acompanhava com tanto afinco cada passo que eu dava. Era quase uma espectadora assistindo seu programa de televisão favorito. Finalmente a sala de jantar já está perfeita. Na janela da sala, mais um papelzinho grudado; "100 maneiras de dizer Allah". E novamente eu pensando: isso aqui é experiência de vida demais!

No final de tudo antes de pegar o dinheiro e vazar, a senhora do alto de sua bondade me oferece um café. Recusei porque o cansaço era exaustivo, mas ela insistiu e eu decidi tomar. Conversa de elevador, o tempo, a Inglaterra, ela volta a dizer que as brasileiras são as melhores faxineiras da terra. "Friendly, and like so much your job". Eu concordo sem dizer um piu. Ela sendo faxineira e agora chefe de uma tradicional família muçulmana talvez tenha se esquecido como é ter que trabalhar pra viver. Chega por hoje, see ya Allah.






quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Trabalho Voluntário (Parte 1)



E então, no meio daquela cidade pequena e ainda desconhecida, estava eu, ansiosa para falar inglês, curiosa pra descobrir o pulsar que rodeava meu novo endereço, queria conhecer pessoas, queria postar fotos feliz com meus novos amigos, queria enfim, dar o start numa história que passava a ser só minha, a minha experiência fora do Brasil.

Pesquisei alguns cursos, coloquei anúncio de babá e faxineira nos murais. Os dias se passavam e nada acontecia. A euforia da chegada havia passado e a vida chamava pra parte séria da coisa. E nada. Foi ai que finalmente criei coragem e decidi bater na porta do trabalho voluntário, que parecia ser um caminho viável.

No centro de Peterborough existem várias lojinhas de doação, as chamadas "Charity Shop", aonde é possível comprar roupas em boas condições por 1 pound, bolsas, sapatos, livros e uma infinidade de coisas que chegam até lá.

Eis que no primeiro contato uma moça muito gentil disse que eu poderia começar quando quisesse. Segunda-feira às 09h, pronta para começar, chego nervosa e sou encaminhada para uma salinha nos fundos da loja. "Hello, Nathália, can you put on the clothes on the table, please?".

Coloquei minha bolsa num ármario que ficava numa cozinha improvisada, respirei fundo, enchi o pulmão de ar e vambora! Dai caiu minha  ficha de que eu e mais uma turma de senhorinhas éramos responsáveis por receber as roupas, separá-las, colocá-las no cabide de numeração certa, passar o stimer e deixá-las prontas para a venda. Nada que uma vendedora de loja convencional não saiba fazer. Mas um detalhe logo me pegou de surpresa: ninguém falava inglês!

Era um tal de entra senhora, sai senhora, chega senhora com carrinho de bebê, chega senhora com netos e brinquedos que tocam musiquinha, e nada do inglês aparecer. Pra mim aquilo ali era russo, mas quem sou eu pra julgar a língua dos outros, né?

Tinha uma senhora muito brava, lábios finos e retos, me lembrou a Red de OITNB. Ela viu que eu estava fazendo algo errado e começou a me dar todas as coordenadas no idioma dela! Eu segurei a risada, porque veja bem minha senhora, estou aqui para praticar inglês o quê é que a senhora tá falando?

E a cada coordenada era um doce que ela me dava. Na primeira vez, com vergonha, não aceitei o picolé de chocolate. E ela mandou um: "Why?" tão forte que peguei o sorvete e fim da história. Roupa vai, roupa vem, era uma pausa para um donut de chocolate. A tarde ia chegando e tacá-lhe doce nessa lojinha! Nesse dia devo ter comido uns 5 doces, e se no começo recusei, depois peguei numa boa. "Mas gente, vocês não falam inglês?", era o que eu pensava a cada mordida.

A moça que me recebeu no começo era a única que falava em inglês comigo, mas eram poucas palavras, frases isoladas e ela passava a maior parte do tempo falando no outro idioma.

"Vamo lá Nathália, é só o primeiro dia, como assim vendi meu carro pra chegar até aqui e desistir logo de cara?", a mente não dava trégua.

Fui trabalhar quarta, quinta e finalmente na sexta, certa de que não seria ali que eu falaria inglês, certa a agradecer a oportunidade e tocar a vida, eis que a moça manda: "Are you Bulgarian, isn't it?" Respondi: "Not, I'm Brazilian" e todas elas caíram na risada, porque naquela altura do campeonato elas tinham certeza que eu falava búlgaro.

Também ri aliviada por entender o que estava rolando, comi o último doce que fora doado e tive certeza de que a história tinha que continuar em outro lugar.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

faz parte

;´(

Os seres humanos e a necessidade de querer sempre estar aonde não estão. A inquietude da mente, o desejo pelo "lá", a desvalorização do aqui e do agora. Não faz o menor sentido viver engolindo meses e achando que no futuro, sempre ele, é que seremos felizes. Eu sei que quando voltar para o Brasil a maioria das coisas e as pessoas estarão do mesmo jeito de quando sai... eu sei, mas hoje eu queria muito comer pão de queijo e tomar o café de coador da minha mãe sabendo que o Lapa só passa de 40 em 40 minutos e mesmo assim não tendo preocupação, e mesmo assim estaria com a Diná grudada aos meus pés, e a cada gole o pensamento de que "nossa as coisas estão mesmo caras no supermercado, a crise, o Brasil, e o Fora Temer", eu queria, mas eu estou aqui sentada na mesa, a janela lateral aberta, o nublado inglês persistente, a BBC R1 tocando os mesmos pops e eu ensaiando estender a canga no carpete e desenvolver uns exercícios de pilates...

A verdade é que quando a saudade bate não há contagem regressiva que cesse, não há Chilli con Carne que tampe a vontade do pão de queijo quente, não há pop que cale a vontade do samba, e segue tudo isso o misto de crescimento e aprendizagem.

Eu não quero contar dias, eu quero sossegar minha cabeça e curtir o agora, eu desejo fazer curvas nessa reta, eu não aceito o morno e nem  a acomodação, por mais metas e objetivos que eu tenha feito, a vida é mais além, mais além que esse ensaio de texto, esse desabafo,

Nada como ficar sem algo para valorizá-lo, não é mesmo?



quarta-feira, 13 de julho de 2016

O aprendizado diário de quem é imigrante



Decidir morar fora do Brasil vai muito, muito além de aprender outro idioma e conhecer outra cultura, ainda que esses sejam os principais objetivos para viver essa experiência. A começar pela super glamourização que os brasileiros têm sobre a ideia de que viver em outro país é sempre uma grande festa, com muitas realizações, amigos pra dar e vender, além do idealismo de que ser garçom ou babá e ganhar uma grana honesta com esses trabalhos seja muito melhor do que continuar a batalhar pela carreira sonhada no Brasil. É óbvio que esse texto é sobre a minha experiência pessoal, do ponto de vista de uma jornalista de 29 anos, e também vale ressaltar que é totalmente diferente quando você faz uma viagem desse tipo aos 15, aos 20 e aos 30 anos.

Eu sou Brasileira de carteirinha e coração, tenho percepção de como algumas coisas vão mal no meu país, mas sei valorizar os diversos pontos positivos que ele possui e isso tem sido um aprendizado enorme: não comparar tudo com o Brasil e aprender que os Ingleses definitivamente não são como os brasileiros (e nem nunca serão). O povo brasileiro é vivo, alegre, falante, de fácil trato e tem prazer em hospedar quem quer que seja. Tem um pouco daquela coisa de síndrome de vira-latas que ao ver algum Europeu faz de tudo para que ele se sinta em casa, dá um jeito de fazer mímica e tenta até falar a língua extrangeira. (Brasileiro é foda!)

Com os ingleses não é assim. Com os ingleses do interior não é assim de jeito nenhum! Salvo algumas exceções (amigos do meu namorado que trabalha numa empresa daqui) é muito difícil fazer amizade, são quase 3 meses morando aqui e apenas uma vez fizemos amizade com um senhor que veio conversar conosco em um bar. Nos outros dias, seja andando na rua, parando em uma lanchonete ou estando na biblioteca, não conversei com ninguém. Vale dizer que após a saída da União Européia a xeonofobia cresceu e eu sinto o distanciamento deles aumentar com quem é estrangeiro.

Manda mais que tá pouco! 

Continuo aprendendo que não ter grandes expectativas ou exercitar a aceitação poupa várias lágrimas. Não é fácil. Tem a vergonha de falar errado, tem brincadeiras e piadas internas que não entendo (e eles não explicam), tem que saber lidar e conversar com quem realmente quer conversar comigo, tem que desconstruir a ideia de que a Amazônia não é perto de São Paulo e que o Brasil não é só samba, Carnaval (infelizmente) e futebol. E haja paciência para esperar a indicação do amigo do amigo que tem um restaurante e pode me arranjar um trabalho, ou a amiga da cabeleireira que ficou de falar com o namorado pra ver se consegue alguma coisa. Os dias vão passando. Enquanto isso, "tem que assistir TV e séries e inglês", eles dizem, "tem que sair sozinha e ir se virando por aí", eles dizem, mas ninguém diz que dá um desespero danado se você não sente que a coisa está fluindo. Não é tão simples sair por ai sozinha e se sentir ignorada. Tem que saber também que nem sempre você será a mesma pessoa que era no seu país de nascimento. A Nathália desinibida e cara de pau brasileira ainda não apareceu por aqui e tome mais aprendizado sendo tímida e falando pouco.
Falando ainda sobre as expectativas tem também as expectativas de outras pessoas (principalmente pai e mãe) que veem na viagem uma oportunidade de enriquecer, juntar dinheiro ou tirar um visto permanente e não voltar nunca mais porque para eles viver no fora do Brasil é muito melhor. La vai eu tentar explicar que nada é tão fácil como no filme do Telecine e sou julgada de "pessimista ou reclamona de barriga cheia".

Saudades


Viver fora do país também me ajuda a enxergar o tamanho desse mundo todo, a importância das minhas amizades, tenho descoberto saudades diferentes (nunca quis tanto um pão de queijo na vida!) e praticar o autoconhecimento tem sido atividade diária. É chato saber que meus amigos estão em Festas Juninas enquanto na Inglaterra chove a chuva de todos os dias e eu me contento com as fotos do Instagram e a playlist do Youtube. Mas é também valioso saber que eu sou mais uma dessa multidão e que não faço tanta falta assim (sem mimimi), quem parte é que aprende a enxergar isso, quem fica segue vivendo a caminhada. Receber um áudio do Santo Forte, ou uma foto de alguém que foi no forró e lembrou de mim reafirma minhas raízes, de onde eu vim e pra onde vou voltar, já que com tantas emoções é fácil esquecer esses fatores importantes.

Como eu disse no começo do texto o aprendizado é árduo e diário, mas é também maravilhoso. Dia desses estávamos tomando sol no gramado em frente à enorme catedral. Era fim de tarde, não tinha mais ninguém ao nosso redor e ao mesmo tempo em que eu olhava o topo da igreja eu senti uma sensação boa de quem sabe que tudo é passageiro e que não há o que temer (fora Temer!!!), a gente tem mais é que tentar ser feliz mesmo diante das dificuldades.

E só pra finalizar: eu também tenho aprendido que exercitar alguns clichês é fundamental, mas a gente tem mania de desprezá-los.



sexta-feira, 10 de junho de 2016

Relato sobre machismo




Aos 9 anos eu tinha que passar por uma esquina pra chegar até a casa da minha avó e nesta esquina sempre tinha muitos moleques mais velhos,de uns 15 anos e eles assobiavam, faziam palhaçadinhas, brincadeirinhas, aceleravam a moto e eu ODIAVA ter que passar por aquele caminho e odeio até hoje. Vinte anos depois, os moleques cresceram e tornaram-se homens que continuam na esquina mexendo com as mulheres. Até hoje eu recebo olhares que me incomodam, mas agora se fizer qualquer barulho o cara leva um xingo muito grande.

Aos 13 quando a moda era usar calça legging branca no auge do verão dos anos 2000 eu tinha que usá-la com uma blusa amarrada na cintura porque eu me sentia um pedaço de carne na rua e era só ódio que aumentava. Até hoje eu odeio usar legging pelo mesmo motivo.

Aos 14 num sábado de sol fui sozinha ao supermercado que tinha próximo à minha casa e um cara de uns 19 anos passou a mão na minha bunda e olhou firme pra mim, naquela hora, com a Raposo Tavares bombando, porra, às 14h de um sábado, eu tinha certeza de que seria estuprada, mas ele foi embora e eu parei de fazer esse caminho sozinha por medo.

Aos 16 e sob um relacionamento abusivo e muito pesado, além de ficar vidrada assistindo novelinha da Globo, eu acreditava piamente que o cara podia fazer o que bem quisesse, mas era pra mim que ele sempre voltava, ai essa dor de amor que no último capítulo tem sempre um final feliz. E quando a ousada era eu que saia sem avisar, ou ficava de conversinha com algum amigo era briga na certa. Como assim tá conversando com outro homem que não sou eu?  Que fase horrível!

Aos 17 eu decidi que não iria mais em nenhuma baladinha da Vila Olímpia, porque eu odiava aqueles corredores que os moleques faziam e ficavam pegando na barriga das meninas, puxavam os braços, passavam as mãos nas nucas, era uma sensação ridícula e eu sempre tinha que usar muita força e empurrar os caras fazendo com que a balada fosse uma merda.

Aos 22 eu comecei a ir pro forró aonde finalmente eu tinha um lugar pra dançar sem compromisso, sem corredor com homem babaca, sem área Vip, sem porra nenhuma, mas ai de mim se começasse a ficar com vários caras, aonde já viu ser mulher solteira ficar falada na boca do povo, ai de mim  pegar outro cara no meio do baile, como assim? Não pode. tem que se esconder, só os caras podem, você não, você é mulher e pega mal. Que grande bosta, hein?

Aos 24 sob um relacionamento machista, o cara achava que podia tudo, sair escondido, não dar satisfação, mas ai de mim se não atendesse o telefone, ai de mim se não colocasse status no Facebook, ai de mim se saisse sozinha, ai de mim se subisse numa cadeira pra cantar minha música favorita, que horror, hein? você é mulher, tem que se comportar.

Aos 28 indo pro trabalho num domingo, fui assediada por jovens bêbados que estavam sentados na escada da estação de metrô. Mexeram comigo, fizeram piada, achei que dessa vez seria diferente, e fui atrás de algum segurança que fizesse alguma coisa. Na estação Butantã só trabalhavam seguranças homens e o segurança que me ouviu disse que não poderia fazer nada, até porque "eles estavam brincando e não enconstaram em você".

Durante toda a vida eu ouvi: "Se comporta, Nathália, homem nenhum vai ter querer desse jeito, Nathália, fica quieta, Nathália, esse vestido tá muito curto, Nathália, mas vai com essa saia, Nathália? E os namoradinhos, Nathália?

Eu também já fui muito machista e o pior é que reforçava frases (mal) feitas como "aquela ali é vagabunda, olha o jeito dela", "aquela ali é uma vaca, olha aquela roupa" "olha ali aquela puta dando em cima do meu namorado" (a culpa era sempre das mulheres, meus ex eram sempre santos e eu era ignorantemente cega), eu reforçava justamente o que eu mais odiava que fizessem comigo.

Mas graças a internet, aos textos, às novas amizades que foram surgindo, graças a esse movimento todo, a coisa engrenou de uma tal forma que posso olhar pra trás e enxergar como a desconstrução foi benéfica na minha vida, e se por um lado ainda tem muita mulher por aí arrumando encrenca e engrossando o caldo de uma competição boba e machista, por outro, felizmente, as mulheres estão se unindo, se ajudando, botando a sororidade pra rodar!

O machismo tem que ser combatido todos os dias e esse é um caminho sem volta. Ainda tem muita coisa pra ser desconstruída, é tijolo por tijolo, um processo árduo e longo, mas que bom poder escrever esse texto apesar de todas as lembranças tristes. Acredito que algo melhor está em construção.

PS: #naopassarao



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Pqna Dosagem....

... da vida atual



Enquanto vejo um vídeo sobre massagem modeladora, na outra aba tem uma receita de Fondue, na outra tem uma entrevista com a Marília Gabriela, no celular tem amigas falando via Whatssap e de quebra eu passo os olhos rapidamente por um email. É assim que de uma forma que eu não consigo explicar muito bem eu consigo me organizar e fazer tudo aquilo que propus. Falta de foco? Falta de concentração? Alguns com certeza diriam que sim, mas esse é meu jeito de trabalhar e desenvolver textos, cozinhar e ouvir um som. Acho que essa cena pode dizer muito sobre mim: acelerada, multitarefas e ligada em 220 volts. Que assim seja! Se tô quieta é porque tem algo errado....