sexta-feira, 10 de junho de 2016

Relato sobre machismo




Aos 9 anos eu tinha que passar por uma esquina pra chegar até a casa da minha avó e nesta esquina sempre tinha muitos moleques mais velhos,de uns 15 anos e eles assobiavam, faziam palhaçadinhas, brincadeirinhas, aceleravam a moto e eu ODIAVA ter que passar por aquele caminho e odeio até hoje. Vinte anos depois, os moleques cresceram e tornaram-se homens que continuam na esquina mexendo com as mulheres. Até hoje eu recebo olhares que me incomodam, mas agora se fizer qualquer barulho o cara leva um xingo muito grande.

Aos 13 quando a moda era usar calça legging branca no auge do verão dos anos 2000 eu tinha que usá-la com uma blusa amarrada na cintura porque eu me sentia um pedaço de carne na rua e era só ódio que aumentava. Até hoje eu odeio usar legging pelo mesmo motivo.

Aos 14 num sábado de sol fui sozinha ao supermercado que tinha próximo à minha casa e um cara de uns 19 anos passou a mão na minha bunda e olhou firme pra mim, naquela hora, com a Raposo Tavares bombando, porra, às 14h de um sábado, eu tinha certeza de que seria estuprada, mas ele foi embora e eu parei de fazer esse caminho sozinha por medo.

Aos 16 e sob um relacionamento abusivo e muito pesado, além de ficar vidrada assistindo novelinha da Globo, eu acreditava piamente que o cara podia fazer o que bem quisesse, mas era pra mim que ele sempre voltava, ai essa dor de amor que no último capítulo tem sempre um final feliz. E quando a ousada era eu que saia sem avisar, ou ficava de conversinha com algum amigo era briga na certa. Como assim tá conversando com outro homem que não sou eu?  Que fase horrível!

Aos 17 eu decidi que não iria mais em nenhuma baladinha da Vila Olímpia, porque eu odiava aqueles corredores que os moleques faziam e ficavam pegando na barriga das meninas, puxavam os braços, passavam as mãos nas nucas, era uma sensação ridícula e eu sempre tinha que usar muita força e empurrar os caras fazendo com que a balada fosse uma merda.

Aos 22 eu comecei a ir pro forró aonde finalmente eu tinha um lugar pra dançar sem compromisso, sem corredor com homem babaca, sem área Vip, sem porra nenhuma, mas ai de mim se começasse a ficar com vários caras, aonde já viu ser mulher solteira ficar falada na boca do povo, ai de mim  pegar outro cara no meio do baile, como assim? Não pode. tem que se esconder, só os caras podem, você não, você é mulher e pega mal. Que grande bosta, hein?

Aos 24 sob um relacionamento machista, o cara achava que podia tudo, sair escondido, não dar satisfação, mas ai de mim se não atendesse o telefone, ai de mim se não colocasse status no Facebook, ai de mim se saisse sozinha, ai de mim se subisse numa cadeira pra cantar minha música favorita, que horror, hein? você é mulher, tem que se comportar.

Aos 28 indo pro trabalho num domingo, fui assediada por jovens bêbados que estavam sentados na escada da estação de metrô. Mexeram comigo, fizeram piada, achei que dessa vez seria diferente, e fui atrás de algum segurança que fizesse alguma coisa. Na estação Butantã só trabalhavam seguranças homens e o segurança que me ouviu disse que não poderia fazer nada, até porque "eles estavam brincando e não enconstaram em você".

Durante toda a vida eu ouvi: "Se comporta, Nathália, homem nenhum vai ter querer desse jeito, Nathália, fica quieta, Nathália, esse vestido tá muito curto, Nathália, mas vai com essa saia, Nathália? E os namoradinhos, Nathália?

Eu também já fui muito machista e o pior é que reforçava frases (mal) feitas como "aquela ali é vagabunda, olha o jeito dela", "aquela ali é uma vaca, olha aquela roupa" "olha ali aquela puta dando em cima do meu namorado" (a culpa era sempre das mulheres, meus ex eram sempre santos e eu era ignorantemente cega), eu reforçava justamente o que eu mais odiava que fizessem comigo.

Mas graças a internet, aos textos, às novas amizades que foram surgindo, graças a esse movimento todo, a coisa engrenou de uma tal forma que posso olhar pra trás e enxergar como a desconstrução foi benéfica na minha vida, e se por um lado ainda tem muita mulher por aí arrumando encrenca e engrossando o caldo de uma competição boba e machista, por outro, felizmente, as mulheres estão se unindo, se ajudando, botando a sororidade pra rodar!

O machismo tem que ser combatido todos os dias e esse é um caminho sem volta. Ainda tem muita coisa pra ser desconstruída, é tijolo por tijolo, um processo árduo e longo, mas que bom poder escrever esse texto apesar de todas as lembranças tristes. Acredito que algo melhor está em construção.

PS: #naopassarao



Um comentário:

Dmis disse...

do machista que um dia foi, graças a caminhada e as mulheres que convivi cada dia resta menos... triste que você tenha passado por tantas situações dessas... daquela do metrô: a raiva ainda persiste!