Eram dias difíceis na casa da Quitanduba!
Tempos de grana curta e desemprego. A matriarca que até então estava trabalhando, perdeu o emprego, e o pai, que já fazia uns bicos, teve que se virar pra continuar sustentando uma família com quatro filhos e duas agregadas que lá praticamente moravam (e francamente, a gente nem se tocava, não é mesmo????).
Numa das sextas-feiras, fazia frio, aquele frio do inverno úmido de SP, todos reunidos em casa, eis que Rose abre o armário: "Quase não tem mais comida nessa casa! Quer saber? Vou fazer uma canja!
Uma simples canja que fora preparada num caldeirão que era pra fazer render. Sentamos à mesa, tomamos a sopa e eu podia perceber a ansiedade e a angústia que aflingia aquela mãe, mas que mesmo em meio à tantas adversidades nunca deixou de ter esperança em dias melhores.
O dia da canja me marcou porque naquele dia aprendi que as dificuldades vão vir, mas dias bons também não tardam em chegar! Nesse período também teve o episódio de ganharmos várias pizzas do gerente da pizzaria que ficava bem em frente a casa! O velho era meio esquisito, mas se encantou com a Bia e dizia que eram pra ela... então tá, né?
Hoje, adulta e dona de todos os meus problemas e meus planos, quando me pego tendendo ao pessimismo, volto ao dia da canja e me encho de otimismo novamente.
Era só uma canja, mas veio temperada com significados valiosos.
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
domingo, 14 de junho de 2020
Os Quindins de Rose Helena
Rose chegava animada, guardava a caixa na geladeira e ia perguntando como tinha sido nosso dia.
Eu estava ou muito feliz ou pra morrer, já que o coração de um adolescente bate somente nesses dois compassos. Depois a gente ia decidindo qual seria o plano daquela sexta à noite: pizza ou esfiha em casa ou cerveja na churrascaria com música ao vivo, tudo no nosso amado Butantã. Foi nessa época, eu com meus 16 anos, que fui descobrindo a importância da cooperação, da acolhida, a importância da família.
Em dias de festa de aniversário, os quindins também apareciam, mas ficavam pro pós festa.
As reuniões eram animadas e a zueira começava sempre na hora de arrumar a casa, quando Rose erguia todos os móveis pro alto e colocava Nova Brasil FM pra tocar alto! Certamente meu lado MPB hippie foi consolidado naquela casa. Não tinha uma Gal ou um Raul que passassem batidos! Sem falar nas festas em que surgia o Karaokê e aí a zorra estava formada.
No final, quando todos os convidados haviam ido embora, era a hora de tomarmos uma cerveja só entre nós cansados, bêbados, mas muito felizes.
Quantos aniversários passamos ali?
Quantos banhos, quantos afters, quantos sonhos e desiluções vivenciei naquela casa?
Tão sutil e profundo, o partilhar de um simples quindim: um milhão de significados.
Marcadores:
amor,
Butantã,
Memórias,
mpb,
tudo verdade
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Saudades bestas
Sobre saudades bestas:
Sair da agência correndo às 18h, subir a rua com a Pri e sentar no posto de gasolina pra tomar dois latões enquanto o maldito trânsito de Alphaville ameniza. A gente pagava no VR, discutia as notícias mais bombadas da semana e riamos de todas as agruras vividas até então. Era bom demais.
Ver o por do sol de inverno da janela do apê da Elis Regina. A época era de pouca grana, alimentação saudável e Netflix diariamente. Eu encontrava o Benjamin semanalmente e também comia pastel em alguma feira pelos arredores do Butantã.
Indo um pouco mais atrás, sair às 15h da Pan e ir pra casa dirigindo o Catarino era maravilhoso. A casa da Rua do Rio Azul era grande, arejada, iluminada e naquela época meu tempo rendia muito. Acordar às 5h30 era um saco, mas o restante do dia valia demais.
Pra não passar em branco e deixar a lista incompleta: Qualquer coisa besta feita em P'boro é sinal de saudade profunda. Ir ao ASDA, tomar sorvete na praça, pedalar até a Larry, fazer festinhas. essa viagem realmente deveria virar um livro.
Durante os últimos semestres da faculdade eu tomava todo santo dia meu café da manhã numa lanchonete simples bem na Av. Rudge Ramos. O casal de senhores japoneses proprietários do local me atendiam diariamente com bom humor, fosse sol ou fosse chuva. Lembro de em dias muito frios eles dizerem: "Hoje não tá fácil, hein? Boa aula". aquele carinho deixava meu dia menos cinza.
Também sinto uma saudade besta mas muito óbvia da época em que era repórter da Condominial.TV. Eu fazia as pautas, ia atrás dos personagens, produzia o relatório de edição e ajudava a decupar. Sério! que experiência mais foda! Com toda a liberdade (e inexperiência tbm) de uma foca nata, era um tal de subir em prédio, gravar com advogados, participar de congressos. Até brigada de incêndio eu fiz. Desse trabalho guardo o maior carinho do mundo. saudade demais.
Saudade da comida da Eva, do humor do José, da meiguice da Mariam e do descontrole da Evelyn. Minha família cubana adorada! Até hoje consigo sentir o gosto da pizza de cebola que comi numa barraquinha saindo da praia. Na hora em que essas coisas acontecem a gente não dá muita bola e só depois percebe que aquele era um momento especial. O ajiaco forte da senhora em Cienfuegos também foi marcante e responsável por me curar de uma brava desidratação.
cada momento uma saudadezinha besta.
Sair da agência correndo às 18h, subir a rua com a Pri e sentar no posto de gasolina pra tomar dois latões enquanto o maldito trânsito de Alphaville ameniza. A gente pagava no VR, discutia as notícias mais bombadas da semana e riamos de todas as agruras vividas até então. Era bom demais.
Ver o por do sol de inverno da janela do apê da Elis Regina. A época era de pouca grana, alimentação saudável e Netflix diariamente. Eu encontrava o Benjamin semanalmente e também comia pastel em alguma feira pelos arredores do Butantã.
Indo um pouco mais atrás, sair às 15h da Pan e ir pra casa dirigindo o Catarino era maravilhoso. A casa da Rua do Rio Azul era grande, arejada, iluminada e naquela época meu tempo rendia muito. Acordar às 5h30 era um saco, mas o restante do dia valia demais.
Pra não passar em branco e deixar a lista incompleta: Qualquer coisa besta feita em P'boro é sinal de saudade profunda. Ir ao ASDA, tomar sorvete na praça, pedalar até a Larry, fazer festinhas. essa viagem realmente deveria virar um livro.
Durante os últimos semestres da faculdade eu tomava todo santo dia meu café da manhã numa lanchonete simples bem na Av. Rudge Ramos. O casal de senhores japoneses proprietários do local me atendiam diariamente com bom humor, fosse sol ou fosse chuva. Lembro de em dias muito frios eles dizerem: "Hoje não tá fácil, hein? Boa aula". aquele carinho deixava meu dia menos cinza.
Também sinto uma saudade besta mas muito óbvia da época em que era repórter da Condominial.TV. Eu fazia as pautas, ia atrás dos personagens, produzia o relatório de edição e ajudava a decupar. Sério! que experiência mais foda! Com toda a liberdade (e inexperiência tbm) de uma foca nata, era um tal de subir em prédio, gravar com advogados, participar de congressos. Até brigada de incêndio eu fiz. Desse trabalho guardo o maior carinho do mundo. saudade demais.
Saudade da comida da Eva, do humor do José, da meiguice da Mariam e do descontrole da Evelyn. Minha família cubana adorada! Até hoje consigo sentir o gosto da pizza de cebola que comi numa barraquinha saindo da praia. Na hora em que essas coisas acontecem a gente não dá muita bola e só depois percebe que aquele era um momento especial. O ajiaco forte da senhora em Cienfuegos também foi marcante e responsável por me curar de uma brava desidratação.
cada momento uma saudadezinha besta.
segunda-feira, 23 de julho de 2018
O mesmo sol de inverno
A luz do sol de inverno que bate e invade o quarto faz lembrar o mesmo sol de outono de um outro lugar. A mesma luz, outra alegria, uma ansiedade diferente dessa de agora. Pela janela que reluzia a grama e esquentava a cortina vermelha, quanto sonho foi realizado? Tantos sonhos novos vividos, o tempo passa, a gente nem se dá conta. Naquela casa o calendário tinha uma data marcada, rabiscada em tinta azul, tal e qual a história da Cinderela: hora para começar e terminar. Agora, pela avenida movimentada rumo a um trabalho qualquer, o mesmo sol de outono faz reviver a antiga sensação. Hay que ter outros ares, outros caminhos, outros endereços, uma grama diferente, o parapeito largo de uma janela térrea, cortina em veludo? tão anos 80, tão saudade. A janela da cozinha abria de um jeito estranho, quebrava o vento, era lavada pela chuva. O mesmo sol aquecia as pias livrando a torneira quente do trabalho. O fogãozinho, as bancadas todas, tão lindinhas que cada dia podia organizar de um jeito, mesmo quando com tudo bagunçado era tambémém uma forma de organização. As pastilhas coloridas, os armários: um pras coisas gostosas, um pras panelas, o outro acima da geladeira, esse para as bebidas. Tantas vezes lavou a louça preocupada com o trabalho que não vinha, com a palavra que custava a sair do jeito certo, e tinha a conquista pela liberdade, a segurança pra vagar de bicicleta. No fim do dia o sol ia abaixando, era o horário de preparar o jantar. Mil receitas, o básico, ou as porcarias, foda-se! isso aqui é um sonho, sonho vive-se do jeito que a gente bem quiser. Agora um som indie rola pelo fone, acorda da recordação e volta para o modo de vida normal. Que bom ter memória, que bom poder (re)vive-las, que bom que há sinestesia.
Marcadores:
Memórias,
Peterborough,
são paulo,
tudo verdade
terça-feira, 12 de junho de 2018
Há que se celebrar
Acho que um dos presentes mais legais que já ganhei nesta data comercial foi o ingresso pro show da Banda Orquestra Contemporânea de Olinda, quando o ser humano que me presenteou não acreditava em datas comerciais e nem dava presentes. Um outro sensacional foi a viagem pra Amsterdam que, completamente sem querer e sem pensar na data, pois morando fora etc, quando percebi tarramos lá na cidade de filme!
A vida é bela sim todos os dias e deve-se celebrar o amor demais!
soy completamente a favor! É comercial? é, idai?
sou brega, escrevo carta à mão, compro presente mermo, faço jantinha, faço surpresa!
tou nem aí!
posto foto com declaração.
se não for pra se rasgar de amor, celebrar, declarar, que graça tem?
amor escondido, pois aqui que não.
eu boto é cartaz!
viva o dia dos namorados e vida Santo Antonio também!
S2
edit: puxando pela memória lembrei também que ganhei o rádio do Catarino justamente num Dia dos Namorados, eu fiquei tão feliz que quase chorei (piscis). Catarino é muito amor sempre. saudade meu carrinho!
A vida é bela sim todos os dias e deve-se celebrar o amor demais!
soy completamente a favor! É comercial? é, idai?
sou brega, escrevo carta à mão, compro presente mermo, faço jantinha, faço surpresa!
tou nem aí!
posto foto com declaração.
se não for pra se rasgar de amor, celebrar, declarar, que graça tem?
amor escondido, pois aqui que não.
eu boto é cartaz!
viva o dia dos namorados e vida Santo Antonio também!
S2
edit: puxando pela memória lembrei também que ganhei o rádio do Catarino justamente num Dia dos Namorados, eu fiquei tão feliz que quase chorei (piscis). Catarino é muito amor sempre. saudade meu carrinho!
segunda-feira, 30 de abril de 2018
(...)
(...) Pedro tinha me dito que aquilo tudo era pra me tornar mais forte, mas eu não entendia e ainda ficava puta com ele.
"Você é a mulher mais brava que já conheci", assumia acentuando seu lindo sotaque de Fortal.
Nos conhecemos num lapso carnavalesco enquanto eu dançava arerê e lembrava da Thaís, eu ia desaguar algumas lágrimas quando ele chegou exibindo seu belo sorriso.
"Porque além de brava, você é uma mulher muito decidida, e eu acho isso lindo, além de me dar muito tesão", tá pedro querido, mas não é disso que estamos falando agora, certo? me ajuda, mano, você não tá me ouvindo!
"É só você deixar pra lá", disse o simplista capricorniano.
Pedro sabia que eu não sou de levar desaforo para casa, que num tô nem aí e que meus quase 7 anos de terapia tinham me ajudado muito, mas não me tornado outra pessoa.
Porque quem ama bloqueia, dizia o jingle de uma marca de telefonia.
Porque quem ama bloqueia, dizia o jingle de uma marca de telefonia.
Sabiamente Pedro disse que já havia esgotado suas argumentações sobre o tema, e que eu estava tentando fazer ele dizer o que eu queria.
Mas Peeeeeedro!
Mas Peeeeeedro!
Bati a porta pesada da Pagero semi puta e semi bêbeda.
"Vou analisar e depois te falo, vamo logo com isso que eu ainda vou voltar pra lá". (....)
Marcadores:
amor,
Memórias,
rascunhos,
tudo verdade
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Amsterdam e todo seu cenário
Cheguei em Amsterdam aos prantos por sei lá qual motivo. aos prantos mesmo, nem era raiva, era tristeza. Depois de quase morrer de infarto e quase perder o avião, na saída do aeroporto, novata, sem entender nada, eu só queria chorar (ai meus peixes). Fui alertada: Brasilzinha, vem aqui, cê sabe onde vc tá, meu bem? não, eu não sabia.
choro chorado, baile seguido.
Amsterdam é filme, é cenário, é clichê, é vida bela, é de uma lindeza tão grande, mas tão grande que a gente se pergunta um milhão de vezes como é que deve ser morar ali naquele paraíso. deus do céu, quanta beleza, quanta leveza (pelo menos pra quem é turista). cada esquina é um fotão mesmo que você não seja fotógrafo.
Cervejas, queijos and smokes à parte, ver a vida passar em Amsterdam é, por si só, um grande passeio. Os barquinhos pelos canais, o vento batendo nas folhas, no rosto rosado de quem é fruto daquela terra, o país de Anny Frank, que foi devastado e conseguiu se erguer novamente sem deixar para trás suas marcas.
E o trenzinho azul que vagueia pelo centro? A louca dos trens ficou fascinada.
Foi com muito medo que meti a cara na bike e passei a enxergar uma nova cidade sob rodas. À noite o charme fica ainda mais especial e o Rijksmuseum ganha uma iluminação tão foda que ali eu tive certeza de que estava numa cena de filme. As ruazinhas, aqueles prédios com janelões, outros com escadinhas pros apês que mais parecem porões, cada quarteirão a imaginação voava criando uma história de um personagem que ali vivia.
Os ingleses são bonitos, mas você já botou reparo num deutch? Receba.
Altos, magros, olhões azuis, boinas e cerveja sempre nas mãos, que ninguém tava ali de brincadeira.
Durante os dias em que estive lá estava rolando algum torneio de futebol e a cidade também respirava os ares do mundo da bola. As torcidas gritavam e os turistas acompanhavam tudo pelos telões dos bares.
Como todas as mini-férias, a viagem logo acabou e a cidade me deixou com gosto de quero mais, e eu tive ainda mais certeza de que meu lance é observar o povo e seus costumes, sentada, bebendo café ou cerveja, bloco de notas a postos, sentindo como é viver ali.
***********
Meus parceiros de viagem sempre foram ótimos e sem frescura. Economiza daqui pra gastar ali, andar sem medo de ganhar as ruas, botar a energia pra jogo, dormir pouco e viver muito, é assim que parceiro de viagem tem que ser. A viagem tem muito de quem viaja conosco, não é mesmo?
**********
Quer uma sensação mucho loca?
Voltar de viagem pra uma outra viagem, pra onde era minha casa, at my new country. Casa é sempre casa e voltar para a pequena Pboro foi um abraço confortável. A Marília inglesa onde tudo é sempre igual e nada muda, rumei pro ASDA que era necessário comprar comida para a semana.
**********
Mini infarto 2: Na volta, o agente british do aeroporto fez 500 perguntas, num inglês caipira e nasalado. folgado, perguntou se eu tinha dinheiro pra ficar viajando aquele tempo todo. No que eu respondi que sim, sim, com licença vamo logo com isso. Minha cara de pau é grande e já me salvou várias vezes. Cara de pau em outro idioma: haja.
choro chorado, baile seguido.
Amsterdam é filme, é cenário, é clichê, é vida bela, é de uma lindeza tão grande, mas tão grande que a gente se pergunta um milhão de vezes como é que deve ser morar ali naquele paraíso. deus do céu, quanta beleza, quanta leveza (pelo menos pra quem é turista). cada esquina é um fotão mesmo que você não seja fotógrafo.
Cervejas, queijos and smokes à parte, ver a vida passar em Amsterdam é, por si só, um grande passeio. Os barquinhos pelos canais, o vento batendo nas folhas, no rosto rosado de quem é fruto daquela terra, o país de Anny Frank, que foi devastado e conseguiu se erguer novamente sem deixar para trás suas marcas.
E o trenzinho azul que vagueia pelo centro? A louca dos trens ficou fascinada.
Foi com muito medo que meti a cara na bike e passei a enxergar uma nova cidade sob rodas. À noite o charme fica ainda mais especial e o Rijksmuseum ganha uma iluminação tão foda que ali eu tive certeza de que estava numa cena de filme. As ruazinhas, aqueles prédios com janelões, outros com escadinhas pros apês que mais parecem porões, cada quarteirão a imaginação voava criando uma história de um personagem que ali vivia.
Os ingleses são bonitos, mas você já botou reparo num deutch? Receba.
Altos, magros, olhões azuis, boinas e cerveja sempre nas mãos, que ninguém tava ali de brincadeira.
Durante os dias em que estive lá estava rolando algum torneio de futebol e a cidade também respirava os ares do mundo da bola. As torcidas gritavam e os turistas acompanhavam tudo pelos telões dos bares.
Como todas as mini-férias, a viagem logo acabou e a cidade me deixou com gosto de quero mais, e eu tive ainda mais certeza de que meu lance é observar o povo e seus costumes, sentada, bebendo café ou cerveja, bloco de notas a postos, sentindo como é viver ali.
***********
Meus parceiros de viagem sempre foram ótimos e sem frescura. Economiza daqui pra gastar ali, andar sem medo de ganhar as ruas, botar a energia pra jogo, dormir pouco e viver muito, é assim que parceiro de viagem tem que ser. A viagem tem muito de quem viaja conosco, não é mesmo?
**********
Quer uma sensação mucho loca?
Voltar de viagem pra uma outra viagem, pra onde era minha casa, at my new country. Casa é sempre casa e voltar para a pequena Pboro foi um abraço confortável. A Marília inglesa onde tudo é sempre igual e nada muda, rumei pro ASDA que era necessário comprar comida para a semana.
**********
Mini infarto 2: Na volta, o agente british do aeroporto fez 500 perguntas, num inglês caipira e nasalado. folgado, perguntou se eu tinha dinheiro pra ficar viajando aquele tempo todo. No que eu respondi que sim, sim, com licença vamo logo com isso. Minha cara de pau é grande e já me salvou várias vezes. Cara de pau em outro idioma: haja.
Marcadores:
amor,
Amterdam,
Holanda,
jornalista,
Memórias,
pro livro,
tudo verdade,
viagens
terça-feira, 17 de abril de 2018
De outros outonos
O outono me faz lembrar do vento gelado que batia na Metodista às 07h30 da madrugada já dentro da sala de aula naquela lonjura do Rudge. Minha grande preocupação há 10 anos atrás era aprender a escrever direito, manjar de laudas e reportagens, falar mal dos outros com o Guilherme e a Nath, e descolar um estágio remunerado que me pagasse mais do que R$ 400,00. Pro ansioso todas as fases doem e não adiantava me dizer que as coisas iam dar certo, eu sofria e nem poderia imaginar os belos rojões que vinham pela vida à frente. Com 21 anos a gente sabe o que dessa vida? Eu achava que sabia muito...
A gente tomava café e chocolate quente quando o frio chegava de vez, o ar gelado do ABC não perdoava. Tudo isso rolava na cantina do Delta, ou a cantina de humanas habitada pelas melhores tchurmas de Jornal, PP e RP, que já naquela época a gente não tinha dinheiro ou saco pra ir comer com a parte coxa da faculdade (eu já tão comunistinha. tão briguentinha. tão fora do padrãozíneo). Era pão de queijo barato e o café pequeno custava R$ 0,50 cents o grande 1,00. Isso sim que era vida!
Depois a gente pegava carona com o Eduardo e com o passar dos anos o Gui finalmente botou o celtinha pra rodar e me deixava todo santo dia na Paulista.
Pqp que saudade!
Agora escrevo esse texto com a tão sonhada experiência que naquela época me assombrava, aprendi não só a escrever, mas a fazer reportagem etc e tal, até release nóis faz agora. Adiantou sofrer, querida? Adiantou perder noites de sono por conta dos trabalhos, pelas notas (um pouco) baixas, pelas imensas vagas de estágio que não foram retornadas?
Naquela época minha preocupação era deixar o cabelo o mais liso que eu conseguisse, acordar 05h30 era um pesadelo, sonho era conseguir ir pro Juca com o rolê já quitado #ata. Nos meus tempos de Virgula eu recebia R$ 380,00, trabalhava dois finais de semana por mês, ia pro Remelexo de ônibus, tomava jurupinga, catuaba e canelinha.
O outono me faz lembrar também que esse ventinho gelado é corriqueiro numa outra cidadezinha que eu jamais imaginaria que conheceria, caso alguém me entrevistasse em 2008 indagando sobre os meus sonhos para o futuro. As curvas da vida, o inesperado, a oportunidade, a coragem, a vontade que dá (e sempre deu) pra me jogar.
2 years ago.
Outono é memória boa e saudade.
A gente tomava café e chocolate quente quando o frio chegava de vez, o ar gelado do ABC não perdoava. Tudo isso rolava na cantina do Delta, ou a cantina de humanas habitada pelas melhores tchurmas de Jornal, PP e RP, que já naquela época a gente não tinha dinheiro ou saco pra ir comer com a parte coxa da faculdade (eu já tão comunistinha. tão briguentinha. tão fora do padrãozíneo). Era pão de queijo barato e o café pequeno custava R$ 0,50 cents o grande 1,00. Isso sim que era vida!
Depois a gente pegava carona com o Eduardo e com o passar dos anos o Gui finalmente botou o celtinha pra rodar e me deixava todo santo dia na Paulista.
Pqp que saudade!
Agora escrevo esse texto com a tão sonhada experiência que naquela época me assombrava, aprendi não só a escrever, mas a fazer reportagem etc e tal, até release nóis faz agora. Adiantou sofrer, querida? Adiantou perder noites de sono por conta dos trabalhos, pelas notas (um pouco) baixas, pelas imensas vagas de estágio que não foram retornadas?
Naquela época minha preocupação era deixar o cabelo o mais liso que eu conseguisse, acordar 05h30 era um pesadelo, sonho era conseguir ir pro Juca com o rolê já quitado #ata. Nos meus tempos de Virgula eu recebia R$ 380,00, trabalhava dois finais de semana por mês, ia pro Remelexo de ônibus, tomava jurupinga, catuaba e canelinha.
O outono me faz lembrar também que esse ventinho gelado é corriqueiro numa outra cidadezinha que eu jamais imaginaria que conheceria, caso alguém me entrevistasse em 2008 indagando sobre os meus sonhos para o futuro. As curvas da vida, o inesperado, a oportunidade, a coragem, a vontade que dá (e sempre deu) pra me jogar.
2 years ago.
Outono é memória boa e saudade.
Marcadores:
amor,
em Londres,
jornalista,
Memórias,
Peterborough,
profissão,
tudo verdade
sábado, 9 de dezembro de 2017
Rua Quitanduba, 45
Eu tinha 16 anos e achava que sabia tudo da vida, já que sempre fui metida a sabichona. Segundo ano do colegial, no Colégio Costa Manso, andava pra cima e pra baixo com o vovô, meu melhor amigo da época. Um dia fui fazer uma maquete na casa do vovô e o espertinho contou para o melhor amigo dele que eu estaria lá, o então amigo chegou e eu fiquei louca da cabeça, meudeusdocéu vem cá. Dezesseis anos, sabe? Malhação total. Pois bem: eu me apaixonei não só pelo amigo do meu melhor amigo. eu me apaixonei pela família inteira. Estamos em novembro de 2003. Eu não gostava de criança e conheci a Beatriz, 03 anos (perdidamente apaixonada parte 01). Conheci a Ciça, 12 anos. A Rose, 36 anos. O Thiago, 14 anos, a Bruna, 14 anos. Rê do alto de seus 18 anos. Sabe quantas vezes a gente viveu nessa configuração de pessoas todas juntas dentro de um sobrado simples da Vila Sonia?
Logo de cara eu entrei no amigo do secreto da família, passei ano novo, depois vieram os aniversários todos, todos mesmo, porque a gente não se desgrudava. A gente fazia faxina juntos e depois cada um ajudava no almoço e era sempre uma briga pra quem ia lavar a louça. Essa casa, a casa da Quitanduba, n° 45, foi por muitos dias o lugar mais acolhedor que eu tinha naquela fase da minha vida. Ontem passei pela rua, passei em frente a casa e eu sei que nunca mais vou esquecer de tudo que passei ali.
Já chorei sentada naquela escada, brinquei numa piscina pequena de plástico cantando cantiga com a Bia, foi lá naquela casa que eu aprendi a tomar cerveja. Lembro de achar o gosto horroroso e a Rose insistir dizendo que no começo é assim mesmo. Os primeiros porres seguidos por banho de mangueira. Foi lá que eu aprendi o que é sentir ressaca, o que é se sentir parte de uma família. Não tinha whatassap, o Orkut e o MSN começavam a dar as caras. Era apenas um computador pra dividir entre mil pessoas e era cada arranca rabo que saia.
Na casa da Quitanduba eu vivi os piores dias de ciúme de toda a minha vida. Eu amava e odiava aquele lugar com muita força. O frio na barriga começava dentro do ônibus. Eu sabia, disso eu sabia mesmo, que aqueles momentos ali seriam marcados para sempre. E não é à toa que até hoje eles são meus queridos amigos, desses que a gente pode abrir o coração e a mente louca sem medo de ser julgada. O que dizer da Rose? Rose-mãe-de-todos. Linda, loira, dona de um par de olhos verdes incomparáveis. Mas sabe o que mais? A Rose ouvia MPB e era meio hippie, ela destrinchava os piores problemas (alô adolescência!) de uma maneira acolhedora, ela ouvia histórias tórridas de amor de toda essa galera e tinha humor pra ainda assim fazer pipoca pra todo mundo e colocar a casa em silêncio para assistir filme. Rose era um exemplo pra mim, pra todos nós. Todos os dias acordava, se arrumava, pegava a Bia pra levar pra escola, voltava na hora do almoço e dava conta de tudo, eram 3 adolescentes filhos dela, mais as agregadas e as sobrinhas. E a casa vivia de porta aberta, ia chegando gente, saia gente, depois chegava o resto da turma e eu nunca ouvi reclamação de encheção de saco. Tô falando que era Malhação da vida real.
Teve Copa do Mundo na casa da Quitanduba. Teve muita música, também. Era o Thiago tocando Legião Urbana igual louco no violão, era o Diego que colocava o Rappa num looping desgraçado, a Bia que queria ver o filme das princesas 70x por dia. A Ciça pelo menos usava o fone, Ciça é um doce, sabe? Eu e a Rê comandávamos os forrós e as gritarias e a gente começou a se amar desde a primeira vez que nos vimos. Oi você é a prima mais velha, né? Sim, e pela risada você é a Nathy, né?
Ai a gente descobriu o DVD da Ana Carolina com o Seu Jorge e novamente ficamos loucos da cabeça. Sabe quantas vezes eu ouvi e cantei e chorei e ri e tomei cerveja ouvindo a Ana tocar pandeiro? A gente cantava "Sina" a plenos pulmões e a casa não era tão grande, mas acomodava todo mundo de maneira exemplar.
E os quadros na parede? Os quadros, a lousa da cozinha, o quartinho da bagunça, os brinquedos da pussazor espalhados pela sala. Era um quarto grande e lembro de ter dor de barriga de tanto rir das palhaçadas dos meninos. A varanda...
A varanda era o canto de parar pra pensar na vida. Será que vou passar no vestibular? Será que eu vou casar com esse namorado? Será que se a gente terminar a Bia um dia vai lembrar de mim? Será que se eu alisar o meu cabelo vai ficar bom? Será que eu trouxe o passe pra pegar o Guaraú na volta?
Um dia a Rose anunciou que o dono ia subir o preço do aluguel e eles teriam que sair de lá. Choro geral. A minha sorte foi que no meio desse rolo todo da mudança, eu tinha terminado o meu namoro ioiô e na fase final da casinha eu não estava presente. Melhor assim. Mesmo depois da mudança, a gente ia lá na Quitanduba só pra matar a saudade, só pra querer dar sequencia numa fase muito boa, linda e especial que pra todo mundo tinha acabado. A vida segue e os ciclos se fecham. Só que agora é muito mais fácil pensar nisso, na época foi dureza. Era a nossa casa! Minha mãe morria de ciúme, dizia pra eu me mudar de vez (e vontade não me faltava). a configuração era toda muito maravilhosa!
Minhas amigas reclamavam que eu só falava disso, que eu só pensava em ir no Dipirá tomar pinguinha de 1,00 e ouvir MPB e muy descolada que era jogava a blusa em cima do orelhão e deixava lá a noite toda (ai porque, né? adolescente.)
A casa da Quitanduba guarda tantas histórias que se fosse pra escrever um livro daria para escrever bons capítulos com tudo o que vivemos ali.
A vida é essa caixinha de surpresa e a gente cruza com pessoas que se tornam essenciais na nossa vida, costuramos relações sem saber quão profundas elas podem ser.
Quitanduba para sempre em nossos corações.
Logo de cara eu entrei no amigo do secreto da família, passei ano novo, depois vieram os aniversários todos, todos mesmo, porque a gente não se desgrudava. A gente fazia faxina juntos e depois cada um ajudava no almoço e era sempre uma briga pra quem ia lavar a louça. Essa casa, a casa da Quitanduba, n° 45, foi por muitos dias o lugar mais acolhedor que eu tinha naquela fase da minha vida. Ontem passei pela rua, passei em frente a casa e eu sei que nunca mais vou esquecer de tudo que passei ali.
Já chorei sentada naquela escada, brinquei numa piscina pequena de plástico cantando cantiga com a Bia, foi lá naquela casa que eu aprendi a tomar cerveja. Lembro de achar o gosto horroroso e a Rose insistir dizendo que no começo é assim mesmo. Os primeiros porres seguidos por banho de mangueira. Foi lá que eu aprendi o que é sentir ressaca, o que é se sentir parte de uma família. Não tinha whatassap, o Orkut e o MSN começavam a dar as caras. Era apenas um computador pra dividir entre mil pessoas e era cada arranca rabo que saia.
Na casa da Quitanduba eu vivi os piores dias de ciúme de toda a minha vida. Eu amava e odiava aquele lugar com muita força. O frio na barriga começava dentro do ônibus. Eu sabia, disso eu sabia mesmo, que aqueles momentos ali seriam marcados para sempre. E não é à toa que até hoje eles são meus queridos amigos, desses que a gente pode abrir o coração e a mente louca sem medo de ser julgada. O que dizer da Rose? Rose-mãe-de-todos. Linda, loira, dona de um par de olhos verdes incomparáveis. Mas sabe o que mais? A Rose ouvia MPB e era meio hippie, ela destrinchava os piores problemas (alô adolescência!) de uma maneira acolhedora, ela ouvia histórias tórridas de amor de toda essa galera e tinha humor pra ainda assim fazer pipoca pra todo mundo e colocar a casa em silêncio para assistir filme. Rose era um exemplo pra mim, pra todos nós. Todos os dias acordava, se arrumava, pegava a Bia pra levar pra escola, voltava na hora do almoço e dava conta de tudo, eram 3 adolescentes filhos dela, mais as agregadas e as sobrinhas. E a casa vivia de porta aberta, ia chegando gente, saia gente, depois chegava o resto da turma e eu nunca ouvi reclamação de encheção de saco. Tô falando que era Malhação da vida real.
Teve Copa do Mundo na casa da Quitanduba. Teve muita música, também. Era o Thiago tocando Legião Urbana igual louco no violão, era o Diego que colocava o Rappa num looping desgraçado, a Bia que queria ver o filme das princesas 70x por dia. A Ciça pelo menos usava o fone, Ciça é um doce, sabe? Eu e a Rê comandávamos os forrós e as gritarias e a gente começou a se amar desde a primeira vez que nos vimos. Oi você é a prima mais velha, né? Sim, e pela risada você é a Nathy, né?
Ai a gente descobriu o DVD da Ana Carolina com o Seu Jorge e novamente ficamos loucos da cabeça. Sabe quantas vezes eu ouvi e cantei e chorei e ri e tomei cerveja ouvindo a Ana tocar pandeiro? A gente cantava "Sina" a plenos pulmões e a casa não era tão grande, mas acomodava todo mundo de maneira exemplar.
E os quadros na parede? Os quadros, a lousa da cozinha, o quartinho da bagunça, os brinquedos da pussazor espalhados pela sala. Era um quarto grande e lembro de ter dor de barriga de tanto rir das palhaçadas dos meninos. A varanda...
A varanda era o canto de parar pra pensar na vida. Será que vou passar no vestibular? Será que eu vou casar com esse namorado? Será que se a gente terminar a Bia um dia vai lembrar de mim? Será que se eu alisar o meu cabelo vai ficar bom? Será que eu trouxe o passe pra pegar o Guaraú na volta?
Um dia a Rose anunciou que o dono ia subir o preço do aluguel e eles teriam que sair de lá. Choro geral. A minha sorte foi que no meio desse rolo todo da mudança, eu tinha terminado o meu namoro ioiô e na fase final da casinha eu não estava presente. Melhor assim. Mesmo depois da mudança, a gente ia lá na Quitanduba só pra matar a saudade, só pra querer dar sequencia numa fase muito boa, linda e especial que pra todo mundo tinha acabado. A vida segue e os ciclos se fecham. Só que agora é muito mais fácil pensar nisso, na época foi dureza. Era a nossa casa! Minha mãe morria de ciúme, dizia pra eu me mudar de vez (e vontade não me faltava). a configuração era toda muito maravilhosa!
Minhas amigas reclamavam que eu só falava disso, que eu só pensava em ir no Dipirá tomar pinguinha de 1,00 e ouvir MPB e muy descolada que era jogava a blusa em cima do orelhão e deixava lá a noite toda (ai porque, né? adolescente.)
A casa da Quitanduba guarda tantas histórias que se fosse pra escrever um livro daria para escrever bons capítulos com tudo o que vivemos ali.
A vida é essa caixinha de surpresa e a gente cruza com pessoas que se tornam essenciais na nossa vida, costuramos relações sem saber quão profundas elas podem ser.
Quitanduba para sempre em nossos corações.
Marcadores:
amor,
Butantã,
Memórias,
tudo verdade
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Sobre o melhor vinagrete do mundo
Nessa vida já fiz muita coisa, sempre com a intensidade que herdei de berço. Já cruzei São Paulo indo longe, muito longe, mais precisamente no Jardim 9 de Julho, São Mateus, zona leste. Do Butantã até lá eram 50 minutos de carro ou 1h30 de ônibus e metrô. E foi assim por uns três meses. Quando me envolvo, me envolvo mesmo, que esse negócio de regular sentimento nunca foi comigo.
Era uma cidade completamente diferente da que eu vivia, interessante e viva. Recheada de bailes funk, pessoas na rua ouvindo som alto, churrasco no quintal, bares. Descrevendo assim parece igual a todos os bairros, mas era diferente. As pessoas meio desconfiadas, porém acolhedoras. A gente ia entrando pelas casas da vizinhança, comia uma torta aqui, tomava uma cerveja acolá. Meio interior, meio vila. Fui recebida sempre com muita simplicidade, e curiosa, captava tudo ao meu redor: as casas, os cheiros, os costumes, o córrego sujo que cortava o bairro, a escola quase abandonada. Sesc Itaquera era nosso vizinho e meu pensamento: "Eu tô muito longe da minha casa, mas quer saber? Nem ligo, tô feliz e é isso que importa". E assim seguiu esse mini-romance até virar o outono e chegar ao final.
Admiro muito quem não teme demonstrar sentimentos, quem consegue abrir a vida e compartilhar seu modo de viver. Naquela época fui muito feliz com pouco, um quarto e uns CDS de forrós antigos, rememorando a época do KVA, comendo batata frita por aí, correndo atrás de uma vaga pra guardar meu carro, tomando café da manhã feito por quem eu gostava, tem melhor?
E todos os domingos em que eu estive lá, eu disse todos, eu comi o melhor vinagrete que já provei na minha vida. A mãe dele, fofa e forte, me contava histórias de como era ser negra e morar na periferia nos anos 80. Enquanto eu ouvia, ela cozinhava, cortava os tomates, as cebolas e as salsinhas. Eu, em silêncio, agradecia a cada colherada.
Num dia de verão e sol a pino, o bafo quente do chão invadia a casa e nem mesmo o solo, que geralmente é fresco, dava conta do calor. No fundo da casa havia um poço e foi de lá que tiramos os baldes da água gelada pra sossegar o corpo.
Atualmente, trabalhando no Belém, diariamente pego o mesmo metrô que há anos atrás me levava para lá. Apesar de rápida essa história foi bonita e verdadeira. São nesses momentos que tenho orgulho de tudo que ja vivi, de quem conheci sem medo do que vinha pela frente. Não tive mais notícias deles, mas o vinagrete jamais saiu da minha cabeça (e do meu paladar).
Era uma cidade completamente diferente da que eu vivia, interessante e viva. Recheada de bailes funk, pessoas na rua ouvindo som alto, churrasco no quintal, bares. Descrevendo assim parece igual a todos os bairros, mas era diferente. As pessoas meio desconfiadas, porém acolhedoras. A gente ia entrando pelas casas da vizinhança, comia uma torta aqui, tomava uma cerveja acolá. Meio interior, meio vila. Fui recebida sempre com muita simplicidade, e curiosa, captava tudo ao meu redor: as casas, os cheiros, os costumes, o córrego sujo que cortava o bairro, a escola quase abandonada. Sesc Itaquera era nosso vizinho e meu pensamento: "Eu tô muito longe da minha casa, mas quer saber? Nem ligo, tô feliz e é isso que importa". E assim seguiu esse mini-romance até virar o outono e chegar ao final.
Admiro muito quem não teme demonstrar sentimentos, quem consegue abrir a vida e compartilhar seu modo de viver. Naquela época fui muito feliz com pouco, um quarto e uns CDS de forrós antigos, rememorando a época do KVA, comendo batata frita por aí, correndo atrás de uma vaga pra guardar meu carro, tomando café da manhã feito por quem eu gostava, tem melhor?
E todos os domingos em que eu estive lá, eu disse todos, eu comi o melhor vinagrete que já provei na minha vida. A mãe dele, fofa e forte, me contava histórias de como era ser negra e morar na periferia nos anos 80. Enquanto eu ouvia, ela cozinhava, cortava os tomates, as cebolas e as salsinhas. Eu, em silêncio, agradecia a cada colherada.
Num dia de verão e sol a pino, o bafo quente do chão invadia a casa e nem mesmo o solo, que geralmente é fresco, dava conta do calor. No fundo da casa havia um poço e foi de lá que tiramos os baldes da água gelada pra sossegar o corpo.
Atualmente, trabalhando no Belém, diariamente pego o mesmo metrô que há anos atrás me levava para lá. Apesar de rápida essa história foi bonita e verdadeira. São nesses momentos que tenho orgulho de tudo que ja vivi, de quem conheci sem medo do que vinha pela frente. Não tive mais notícias deles, mas o vinagrete jamais saiu da minha cabeça (e do meu paladar).
Núcleo Base.
Marcadores:
amor,
caminhos,
Memórias,
tudo verdade
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Dias tristes
(...) Lembro de serem preparados em duas cozinhas simples, mas tinha sempre um ovinho mexido no café da manhã. Cada dia a receita era feita de um jeito diferente. Às vezes só temperos, outras com queijo misturado, ou só com cebola. Era um café da manhã humilde, mas desgustado com muito amor. Fossem dias de chuva, sol a pino ou em temperatura ambiente. Em prato de plástico eram servidos os ovos mexidos quentinhos. Que era uma forma de acolhida e sentir o coração do outro perto de mim. Antes do trabalho, da reunião, do passeio na praça, do banho no banheiro sem boxe. Agora na cozinha ampla e bonita não tem mais ovo. Não tem mais tempero, nem tomate de acompanhento. Não tem mais a companhia de outrora. Tem solidão, um ovo sem gosto e pra completar algumas lágrimas. Pra não esquecer que a vida também é feita de dias tristes. (...)
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Fui feliz em Santos
Há fases na vida que deixam saudades, mas essa que vou contar não precisou completar nem um ano para me deixar nostálgica. Aconteceu em janeiro passado, início de 2014. Sem emprego, tempo livre, curtindo os dias quentes e aproveitando a vida com coisas simples eis que rumei pra Santos, litoral paulista. Fui passar três dias na casa da Michelle, que conheci através da Nath. Eu queria um tempo perto do mar, mas sem grana a situação ficava complicada e a Mi abriu as portas na maior boa vontade.
Um apê gracinha que na pequena temporada me serviu de abrigo. E eu amei. Enquanto ela saia para trabalhar no shopping, eu ficava com a Manu, filha de 7 anos por quem me apeguei. Porque não basta ser tia Nathy, tem que jogar Uno, entrar no mar, ensinar a cantar a música da Gretchen, inventar histórias dentro da água, inventar comidas e comer milho na praia. Na maior simplicidade. Com paz no coração e a certeza de que tudo é possível quando queremos. Entre um cigarro e outro, que Mi fumava sentada no chão enquanto Manu assistia um desenho antes de pegar no sono, conversávamos sobre planos, problemas, passado e futuro. E eu observava com riqueza de detalhes o quão poderia ser delicioso, ainda que trabalhoso, criar uma filha com a independência quebrando a cabeça pra fechar mais um mês.
Manu, que nas duas vezes em que a ví estava quieta e educada, pegou confiança e virou minha amiga <3 font="">3>
E eu ficava pensando como é que passei 25 anos da vida achando criança um saco! (Gratidão ao Benja eternamente....). Quando saí pra uma caminhada sozinha, obviamente me perdi, e como é bom perder-se com o mar ao lado. Tomei açaí, olhei a vida caiçara passar, pensei que certamente me acostumaria a morar lá embaixo ( e que certeza vou morar na praia um dia), e fiquei realmente grata pela atitude da Mi, que dividiu a vida comigo.
Fomos à uma festinha de criança e comemos pacas, Manu uma graça com fita de laço na cabeça, a mãe da Mi extremamente descontrole, espontânea, me diverti horrores com direito a passeio pelo centro velho de Santos e outros lugares especiais... Fui feliz alí.
E sempre que vejo a foto dessas duas lembro como a vida foi doce naquele período. Como pequenas atitiudes podem significar muito num momento confuso e que somos nós os responsáveis por cultivarmos quem entra na nossa vida!
À Mi e Manu obrigada! obrigada.
ando nessas de deixar claro quem é que tá do lado, quem é que faz a diferença e vocês fazem!
suaslinda, tudo Gretch!
amo.
Marcadores:
Memórias,
recordâncias,
tudo verdade
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Memórias
Casa simples, cheia de gente, muitos móveis, quintal e quartinho da bagunça, com direito a banheirinho nos fundos. Ali viveu vários momentos, se descobriu, aprendeu, chorou e riu, fez amigos pro resto da vida. Após a partida ainda voltou ali pelo simples prazer de rememorar os momentos que A Casa tinha proporcionado.
Ela era muito mais que um imóvel, era parte viva, um personagem central da história. Quantas vezes sentou na escada pra esperar? Quantas vezes mudou os móveis de lugar no dia da limpeza? Quantas vezes se arrumou pro bar ou pras festinhas de família? Ou chegou feliz e saiu chorando. Ou chegou chorando e saiu aos pulos?
Ali, naquela tranquila rua, na Casa que não tinha muro e o azulejo era quebrado, se viu dona do próprio nariz e caminho. Hoje quando passa por lá o frio na barriga é inexistente, mas é impossível não virar os olhos e checar como está o imóvel ainda que agora sua visão esteja sem o filtro nostálgico, sem flashs de brilho pulando ao lado das cenas, sem créditos no final do filme. Agora é apenas uma casa, numa rua qualquer.
Ela era muito mais que um imóvel, era parte viva, um personagem central da história. Quantas vezes sentou na escada pra esperar? Quantas vezes mudou os móveis de lugar no dia da limpeza? Quantas vezes se arrumou pro bar ou pras festinhas de família? Ou chegou feliz e saiu chorando. Ou chegou chorando e saiu aos pulos?
Ali, naquela tranquila rua, na Casa que não tinha muro e o azulejo era quebrado, se viu dona do próprio nariz e caminho. Hoje quando passa por lá o frio na barriga é inexistente, mas é impossível não virar os olhos e checar como está o imóvel ainda que agora sua visão esteja sem o filtro nostálgico, sem flashs de brilho pulando ao lado das cenas, sem créditos no final do filme. Agora é apenas uma casa, numa rua qualquer.
Assinar:
Postagens (Atom)



