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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Vontades

Queria poder dar um grito da janela toda vez que um arrombado acelera a porra da moto ou um carro sem escapamento. Isso é moda? denota poder? é in-fer-nal essa barulhada na Santa Cecília. 

Queria fechar meu Linkedin para todo o sempre. "Nathália, você nunca mais precisará abrir essa rede social". Imagina o alívio neste coração?

É claro que eu queria muito poder mandar um áudio pro meu pai contando as últimas, contando todas, falando bem rápido pro tempo não acabar e eu poder enfim ouví-lo de volta. Sem dúvida essa é a maior vontade e a maior mancada dessa vida. Mas a vida não é justa, não é mesmo?

Queria poder dormir e acordar um dia em Dublin, no outro dia em Londres e no outro acordaria no Rio direto pro mar do Arpoador. Imagina dormir e simplesmente acordar em outro país? bom demais.

Queria criar músculos de um dia para o outro e queria poder tomar todas as minhas cervejas em paz sem que isso influenciasse na minha dieta etc e tal. 

Queria dar um abraço na Renault e dizer que ela é muito fodaralha e merece cada centavo.

Queria que o Bolsonaro pegasse muito piolho e que de tanta coceira não conseguisse dormir. Que pena, né? E depois que ele pegasse sarna, pulga e percevejo e sofresse tanto com essas infestações que fosse enlouquecendo e se coçando, e enfim morresse depois da vitória do Lula4.

Queria ser menos tímida e mais corajosa, mas às vezes sou completamente múmia.


Vou fazer sopa de alho poró com batata, quer? 


 






sábado, 7 de setembro de 2024

o dono da dor

 Saiu o Boto Marinho sentido Paquetá. 

Se você caiu aqui do nada, eu te explico: saiu hoje o bloco do Boto Marinho, a gente pega a barca na Praça XV sentido Ilha de Paquetá, e já dentro da barca, o pau come na fanfarra, sacou?

Mas tem bloco em Setembro?
Mermão, o Carnaval do Rio de Janeiro é o maior do mundo, simplesmente pq ele não acaba nunca.

NUNCA NÃO É CARNAVAL, essa frase veio da boca de um mineiro enraizado em SP, no caso, o dono do melhor bloco de SP, mas esse texto não é sobre isso.

E eu que naisci na cidade errada? Papo 10, eu sou carioca. É cidade grande com praia, com bar, com estrutura, com um povo alegre que ginga dentro da maior dificuldade, o carioca tira sarro estando chafurdado na merda, e disso eu sinto um orgulho, pq se fosse em sp tava todo mundo de bico dentro das suas micro bolhas mêu, pensando na meta mêu, eu gosto de trabalhar mêu. (gente chata!)

Eu realmente não posso reclamar, pq são paula tem sido gentil comigo desde que voltei de terras irlandesas, mas peraí um pouquinho: eu quero jogar vôlei na praia, sair andando e me jogar no mar, aquele mar verde de Ipanema, sacoé? Quero tocar meu trombone nos blocos, quero escrever minha tese sobre Carnaval numa terra onde essa coisa é levada realmente a sério! 

 E digo maix: Quero passar pelo seu Zé na Lapa agradecendo sempre, depois de descer Santa Teresa cansada, suada e felix. Pegar uma aula do Simas no Madri, ou no Bode Cheiroso, pq não?

Simplesmente sentar minha bunda no Arpoador e apreciar, só isso.


Eu sei que o Rio de Janeiro não é para amadores, mas se até o sotaque eu desenvolvi, que mais posso dizer senão que eu nasci na cidade errado. Ver meu Palmeiras, meu Vascão no bar, sem ninguém me olhar torto pq eu tô falando alto, até pq o carioca grita! (me identifico muito)

Vou morar na Glória, no Flamengo, Laranjeiras, Tijuca.  O gatilho meu pai.

Pra variar, era pra eu estar lá. Peguei um job pra trabalhar justamente pro Rock in Rio, só que quem me paga é são paulo, imagina a frustração de se sentir presa num lugar só por causa do dinheiro. Na moral, não desejo pra ninguém. Mas porra Brasil, vc pode ir outro finde.

Não posso não, o Boto Marinho de inverno saiu hoje.









meu amor eu te amo demais infinitamente, tu não é fácil, mas eu tbm não sou, porra!
estaremos juntos muito em breve, e daí eu não vou te largar nunca mais.








saravá.


domingo, 25 de agosto de 2024

Veio aí

                                                                        Adivinha o DDD


Bom, de tanto eu falar que sou carioca, que isso, que aquilo, depois do dia memorável de São Jorge lá, eu sei lá o que deu na energia (tudo para mim!), mas mesmo em SP eu comecei a cruzar muitos cariocas. No bar chega uma querendo me mostrar o anel! (era de Copa), depois mil cariocas numa feirinha hippie aqui da rua. Numa outra vez brota uma de Nikity etc. TODOS repetem: "tu tem que morar lá!", meu deus que sotaque bonito, e eu sempre num pequeno surto de alegria ohohhohohohoho.

Corta

No último feriado do dia 09 de julho eu parti pra lá novamente, grazas a Deus. Sábado normal em Botafogo, fui tomar café da manhã e pum: a orla. choros, etc. Depois eu encontrei com Zanetti, Luísa, fiz amigos no hostel, fiz uma melhor amiga de infância e a gente se juntou com um outro carioca queridíssimo!

Sempre que eu me jogo sozinha pro Rio dá bom! NÃO TEM CONDIÇÕES.

Só que chega aquela hora que eu alucino e quero ficar sozinha. Dessa vez eu decidi ir ver um jogo do Flamengo em Vila Isabel, acabei entrevistando a dona de um bar que me contou uma história irada.
Dessa vez o Samba do Trabalhador não me escapou, assim como o Samba pra Roda (total de zero humbertos carrões), enfim eu sambei e sambei e vivi e me joguei no mar.

Corta

Ontem eu fui num churrasco com uma galera querida do Butantã, eis que recebo um presente:
Um mapa do Rio de Janeiro impresso em tamanho gigante, puta que pariu! Exquece de mim, pq eu nao queria mais conversar com ninguém, só queria ver meu mapa, adeus. Chorei? Mas é claro que eu chorei. Só uma pessoa que me conhece assim poderia ter dado um presente desses! pqp eu morri real etc.

Ontem você me perguntou se eu era feliz e eu respondi que sim, claro! e aí vc revidou dizendo que pra você a felicidade é um estado. E eu completei dizendo que eu estava sim feliz. Mas pensando bem, será mesmo? Acho que não sei dizer.

Sabia que eu vou morar na Glória?
Ah é?
Sim fica aqui no mapa.







Calvo.





sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Winter Time

                                                      Dublin, Woodford


O novo ano, esse cujo esperamos tanto, chegou chegando! Eu de PG, linda, animada, cercada pelos amigos que tanto gosto, o amigo que gosto tanto, o corte seco que me surgiu inesperadamente, porém, necessário, lágrimas, risos e gritos. Foi um festão. Fiquei triste, remoendo, mas agora eis que passou, ufa! me sinto leve, serena, plena e preparada! Os planos eu já escrevi e do que depender de mim, vão sair do papel, ahhhh se vão! Eu me jogo real, e não tô nem aí.

A semana começou colocando toda a rotina no lugar. Meus meninos, tretas, broncas, brincadeiras e: Neve!
Dublin amanheceu branquinha, com floquinhos de gelo pairando sob o meu rosto enquanto eu esperava o bus! Que pira! 

O inverno está tão bonito esse ano com pouca chuva, muito frio e sol. Tem saído aquele sol de filme com céu rosa meio algodão doce. É lindo de verdade e ainda que as minhas mãos queimem quando me esqueço de pegar as luvas, ainda que eu tenha que vestir duas calças e o sobretudo, tenho vivido dias muito bonitos. A verdade é que o frio acostuma, o que me fode é a chuva e as longas horas das noites que começam às 16h30 e terminam 08h30 quando a fraca luz do dia aparece. Essa sem dúvida é a pior parte. E haja vinho, haja comida, haja mente forte pra aguentar e esperar que logo mais tudo volta ao normal.

                                                      PG: Pomba Gira petralha


Acho que pra esse ano eu quero ser menos falante, quero me reinventar numa persona que ouve mais do que fala, e opina menos, e tem menos que sentir, ainda que eu não saiba ao certo como é que se racionaliza sentimento e se altera a personalidade. Não quero mais ouvir aquela frase e nem ser mal interpretada, por isso, quem fala menos tem menos chance, né?

Também quero arrasar com o meu trabalho, a minha nova carreira, quero abundância pra ter uma vida ainda mais confortável e quero aprender de uma vez por todas em quem é que eu posso confiar, porque eu entendi que essa lenga lenga só vai acabar quando eu me modificar, passar pelo papelão que passei na festa não quero nunca mais. O medo de perder ainda surge, mas eu tô preparada e eu sou de verdade! então pouco me importa ser cortada de festas e de momentos com pessoas em quem não posso confiar.

Preciso trabalhar aquela parte ruim da minha personalidade. Não dá mais pra ser assim e eu odeio rememorar e rememorar e rememorar e rememorar e rememorar e rememorar uma coisa que já passou.

A vida aqui pegou o ritmo que eu sempre quis. Agora eu sou bilíngue de verdade. Atingi tantos objetivos, alcancei tantos sonhos, agora é hora de me preparar pra voar mais alto, sabe quando o Mário Brós precisa passar a fase do cano pra zerar a estrela e chegar no chefão? é nessa fase que eu tô, e eu vou passar! Não tem piranha nem peixe voador que me segure.

Eu sou muito sortuda e muito grata por todos os meus amigos, mas eu sei o  a energia que eu ponho
pra tê-los por perto, pra me fazer presente seja no Rio, SP, Dublin, Fortaleza, Floripa, Joinville, Bahia. Amizade é coisa séria pra caralho.

Não vejo a hora de ser vacinada, virar jacaré, aprender a tocar saxe e sair tocando no Me Enterra na Quarta e na Charanga! Ninguém me para no Carnaval de 22. E o Bolsonaro que morra, que se exploda, que vire pó.

Agora em Dublin temos -2, tráfego segue tranquilo no sentido Norte e Sul, a previsão é de sábado de sol e poucas chances de chuva, seguimos no vinho, no som e nas boas novas.
Nathália Brasil para o SPTV, Tramontina.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

The Christimas Movie

 


Apesar de me chamar Nathália, nada tenho de Natalina. Não gosto do Natal, acho uma aporrinhação fake e extremamente capitalista, cujo todo mundo tem a obrigação de celebrar e ser feliz e dar presentes e o amigo secreto da firma, o jantar rodeado de parente bolsonarista, aquelas fotos bregas que em meio ao calor do verão brasileiro pagam pau pro inverno americano e europeu, acho o fim da picada quem só vai à missa no Natal, o papai noel, enfim, um saco. Eu sempre passo por essa data mirando o Carnaval, esse sim o melhor feriado mundial. Só que esse ano eu me lasquei. Me envolvi emocionalmente com as melhores crianças que essa Irlanda pariu, dois moleques atentados, lindos, amorosos e educados que por mais que eu tentasse separar como um trabalho, não teve como: foi o melhor match que me aconteceu desde que cheguei em Dublin. 



Eu sou completamente apaixonada por Senan (4 anos), e Mannix ( 2 anos e meio). Eles me alegram, me ajudam, me ensinam inglês, eles me tiram da depressão e foi cuidando deles que acabei ganhando uma família Irlandesa. Essa na verdade era a minha meta do ano passado quando me mudei pra viver numa família Irish. Só que eu cuidava de uma adolescente nojenta e deu tudo errado, quando vi, estava em Amsterdam fingindo que o Natal nem existia. 


Dai nesse ano, eu muito bocuda, disse pro Sen que não gostava do Natal. Ele ficou chocado, pq pra ele, do alto dos seus quatro anos, como assim uma pessoa que não curte essa data tããão especial??? Pois é.

Eu sou o Grinch, o bicho verde que odeia o barulho do Natal e aquela loucura toda. Inventei de assistir o filme com ele e qualoquê ví aquele par de olhos azuis me olharem com um ar triste e ele me perguntou: " Do you like Christimas, now?", and I said: "No".



Duas semanas se passaram até que eu levei um grande susto: a mãe deles (Jacqueline), Irish gatíssima do interior da Irlanda me convidou como quem induz: "Eu gostaria muito que você viesse no nosso jantar de Natal, não é nada chique, e você não vai ter que trabalhar, traga o que você gosta de beber e traga um Pudim (de leite condensado)."

Os irlandeses, assim como os ingleses, são fechados para caralho. Não é comum convidarem alguém que trabalha pra eles participar da data mais especial do ano. Senti que era meu dever ir, como um presente para uma criança de quatro anos que me ama puramente sem qualquer interesse. 

Lá fui eu encarar mais um período Natalino, escrevo no passado porque isso começou há uns 15 dias.
Segunda-feira passada cheguei pra trabalhar e me deparei com uma árvore de Natal gigantesca, daquelas de filme mermo, ele me olhou como quem diz: "e aí, vai gostar do Natal ou não vai?", eu mandei um "Uaaaaaauuuuu", e logo incorporei minha melhor versão natalina. Celebrar essa data com crianças é outra história, eles acreditam que o papai noel vai jogar os presentes pela chaminé e que ele está vendo tudo do alto de sua charrete, e a neve, e os veadinhos que a puxam etc e tal. 

Não tive como não ceder, mas mesmo assim fico emotiva, a saudade do brasil e dos meus pais e tudo mais...

Oficializei o convite e disse logo que serei o próprio Grinch, porque tudo tem limite nessa vida e eu posso até curtir, mas calma lá que meu negócio é aglomeração e bloco na rua.

Essa semana foi um verdadeiro filme de Natal com direito a fogo na chaminé, embrulho de presentes, calendários lúdicos contando os dias, músicas natalinas, jumpers, pesquisas de presentes e cartas para o papai Noel. Se um dia fui contra o Natal não me reconheço.

Sen está feliz da vida após ter amolecido o meu coração peludo e verde.

Lá vou eu dia 25 levando presentes e com um pudim de leite moça na mão.
Que tudo dê certo e saia como o planejado. Talvez eles conheçam uma versão diferente da "Mathalia" childminder, talvez eu chore ao abrir o presente que está enfeitando a árvore com uma tag em meu nome.

Só falta nevar pra ficar ainda mais cinematográfico. (espero que não do fundo do meu coração).

Tá frio pra caralho, a cidade todinha enfeitada, a galera gastando como se não houvesse amanhã, mas acompanhar toda essa saga irlandesa raíz de perto, é sem dúvida, sensacional.

Então é Nataaaal!!!!


pra eu aprender o poder e singeleza que as crianças têm.



É por você Senàn, por você e pelo teu irmão.


Da babá que te ama demais,
Mathalia.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Caetanear o que há de bom

 Em Dublin é meia noite e quinze, já bebi três long necks de Heinecken e mais uma Paulaner, só porque sextou, não é mesmo? Na verdade não, se sexta feira fosse, uma normal qualquer, eu já estaria na cama, mas hoje é Caetano Veloso 78 e eu quero curtir e ouvir ao vivo o meu cantor preferido. Mas tem o fuso, o cansaço da semana e tudo mais, mas sou valente e vou ficar acordada até que ele cante todas as músicas que embalam a minha vida há sei lá quantos anos.

A Globoplay não pega fora do Brasil, donde se conclui que eu preciso instalar um VPN que me dê acesso ao site. Haja.

Ser fã tem lá seus contratempos, mas também tem o gostinho de cantar e vibrar por esse artista tão maravilhoso e singular e narciso.

Meus flatmates vão dormir porque não são obrigados a esperar até 1h30 da manhã pra ouvir esse cara. Só que depois do Carnaval (tão longíquo que parece ter sido há muitos anos atrás), a live que começa daqui a pouco foi das raras coisas que me animou nesse tempo de pandemia e tantas desagruras.

Aguentarei, vou resistir, abrir mais umas cervejas e estar ao vivo no horário de Brasília.

É Caê caralho!

o leão da minha vida, e eu amo loucamente.

ai ai

domingo, 21 de junho de 2020

Vira virou!

Provisório era o plano que eu tinha quando fui pro brasil em fevereiro, depois provisória virou minha situação em Dublin num quarto sem janela com pessoas desconhecidas e um trabalho totalmente mambembe. Encarei, pois era a única atitude possível.

Do quarto sem janela fiz meu refúgio, esse apartamento em Terenure virou minha casa real, onde me senti acolhida, protegida, confortável e tranquila durante o pior período de lockdown. No meio da pandemia eu me reinvetei mesmo num cubículo e com pessoas que nem eram do meu rolê. Mas o rolê veio, e com ele, a confiança, a amizade, a integração e o pertencimento que tanto busquei ano passado.

Agora preciso me mudar novamente, preciso também me adaptar com um novo trabalho no cú do mundo, mas que garante minha sobrevivência em terras irlandesas. Lá vou eu com a cara e a coragem que foi me dada quando cheguei nesse mundo em 1987, medo de trabalho nunca tive, medo de adaptaões tive sim, uma par de vezes. Mas de novo: Não há nada que se possa fazer, encarar apenas, encarar tudo o que vier pela frente, mais uma vez, já que provisória também é essa situação.

Comendo coxinha no restaurante brasileiro semana passada senti o já conhecido gosto amargo da solidão. Nem a pau! Vou me envolver e me jogar com uma nova tchurma de brasileiros que ainda nem conheço, mas posso considerar pacas. Assim é a vida aqui em Dublin e o exercício de desapego pega fundo na carne crua de quem tem de aprender na marra. Aprenderei finalmente, que boa aluna sempre fui e continuarei sendo, mesmo quando as lições da vida me exijam um foco árduo maior do que o eu esperava. Se não vem pelo amor vem pela dor, aprendi sei lá quando.

Eu me jogo e isso tem dado certo, mas o que quero dizer aqui é sobre viver em estado permanente fora da zona de conforto. Conforto não há. Quando achei que estava no controle de algo, tudo mudou, e então tá, vou seguir assim sem medo do futuro e com a plena ciência de que nada podemos controlar.

Já joguei pro universo meus anceios, planos tenho rascunhado à lápis pra poder apagar sem problemas quando o jogo virar novamente.

vira virou!
eu também virei.

ninguém segura um peixe que já aprendeu a nadar sozinho.







domingo, 14 de junho de 2020

Dias de Canja

Eram dias difíceis na casa da Quitanduba!

Tempos de grana curta e desemprego. A matriarca que até então estava trabalhando, perdeu o emprego, e o pai, que já fazia uns bicos, teve que se virar pra continuar sustentando uma família com quatro filhos e duas agregadas que lá praticamente moravam (e francamente, a gente nem se tocava, não é mesmo????).

Numa das sextas-feiras, fazia frio, aquele frio do inverno úmido de SP, todos reunidos em casa, eis que Rose abre o armário: "Quase não tem mais comida nessa casa! Quer saber? Vou fazer uma canja!
Uma simples canja que fora preparada num caldeirão que era pra fazer render. Sentamos à mesa, tomamos a sopa e eu podia perceber a ansiedade e a angústia que aflingia aquela mãe, mas que mesmo em meio à tantas adversidades nunca deixou de ter esperança em dias melhores.

O dia da canja me marcou porque naquele dia aprendi que as dificuldades vão vir, mas dias bons também não tardam em chegar! Nesse período também teve o episódio de ganharmos várias pizzas do gerente da pizzaria que ficava bem em frente a casa! O velho era meio esquisito, mas se encantou com a Bia e dizia que eram pra ela...  então tá, né?

Hoje, adulta e dona de todos os meus problemas e meus planos, quando me pego tendendo ao pessimismo, volto ao dia da canja e me encho de  otimismo novamente.

Era só uma canja, mas veio temperada com significados valiosos.

Os Quindins de Rose Helena



mil significados

Era uma caixa branca, tamanho médio, e chegavam geralmente às sextas-feiras, no final da tarde, inaugurando mais um final de semana. Dentro, a imagem da felicidade absoluta: Quindins frescos, amarelinhos, brilhantes, de dar água na boca.

Rose chegava animada, guardava a caixa na geladeira e ia perguntando como tinha sido nosso dia.
Eu estava ou muito feliz ou pra morrer, já que o coração de um adolescente bate somente nesses dois compassos. Depois a gente ia decidindo qual seria o plano daquela sexta à noite: pizza ou esfiha em casa ou cerveja na churrascaria com música ao vivo, tudo no nosso amado Butantã. Foi nessa época, eu com meus 16 anos, que fui descobrindo a importância da cooperação, da acolhida, a importância da família.

Em dias de festa de aniversário, os quindins também apareciam, mas ficavam pro pós festa.
As reuniões eram animadas e a zueira começava sempre na hora de arrumar a casa, quando Rose erguia todos os móveis pro alto e colocava Nova Brasil FM pra tocar alto! Certamente meu lado MPB hippie foi consolidado naquela casa. Não tinha uma Gal ou um Raul que passassem batidos! Sem falar nas festas em que surgia o Karaokê e aí a zorra estava formada.

No final, quando todos os convidados haviam ido embora, era a hora de tomarmos uma cerveja só entre nós cansados, bêbados, mas muito felizes.
Quantos aniversários passamos ali?
Quantos banhos, quantos afters, quantos sonhos e desiluções vivenciei naquela casa?

Tão sutil e profundo, o partilhar de um simples quindim: um milhão de significados.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Vale lembrar:

A vida é muito curta pra ficar com alguém que transa mal.






quinta-feira, 4 de junho de 2020

Haverá festa


Lugar preferido no bairro preferido na cidade preferida 

O Google Fotos me lembra que há quatro anos estava eu em Peterborough, desvendando a grande Marília inglesa, ainda perdida e muito encantada. Com o dedo avanço a linha do tempo virtual e chego em 2015: nesse mesmo quatro de junho, há cinco anos, feriado de Corpus Christ no Brasil e eu feliz da vida em Santa Teresa, Rio de Janeiro. A foto me leva de volta pro Mambembe, meu hostel fiel e querido, que me deu sobretudo a oportunidade de conhecer Yuri e as meninas de Liverpool
(Rio e UK essa encruzilhada da vida).

A saudade do Rio é infinita, e sabe-se lá quando é que novamente tomarei minha cachacinha na Lapa. Pra aplacar essa ausência, além das fotos e do contato com os meus maravilhosos cariocas sigo os passos virtuais de Luiz Antonio Simas por quem estou perdidamente apaixonada.

Simas é professor, historiador e escritor e eu só o descobri agora! Parte de O Corpo Encantado nas Ruas surgiu num tweet e eu fiquei agarrada naquele tipo de leitura que há muito não encontrava. Puxando uma coisa ali e outra acolá, eis que levo um susto: Ele já foi jurado do Prêmio Estandarte de Ouro, a maior premiação do Carnaval carioca. Ahhhh meu pai!

Basta o título desses livros pra me deixar ainda mais maluca da cabeça: Almanaque brasilidades: um inventário do Brasil popularSamba de Enredo: História e ArtePra tudo Começar na Quinta-Feira. Já revirei a internet pra tentar baixar algum deles, mas não rolou, então sou obrigada em correr numa livraria mais próxima assim que eu pisar no Brasil.

E esse tipo de pessoa me enche de orgulho de ser brasileira, é desse tipo de pessoa que eu quero estar perto, é dessa bolha pensante que eu quero cada vez mais fazer parte, sacoé? Mais uma vez a vida esfrega na minha cara pra que caminho eu preciso ir. Teresa Cristina, Marcelo Freixo, Tarcísio Motta, Roberta Carvalho, Beth Carvalho, Cartola, Nelson Sargento, Manacéia, Casquinha, Aldir Blanc, Marielle Franco.  A lista é imensa, pesada mermo, lindona.

O Rio há de voltar, O Brasil há de ressurgir das cinzas, é uma tristeza sem fim essa lama toda, mas quando encontro um Simas pelo caminho minha esperança se renova. Tem muita gente do bem fazendo acontecer, e como ele mesmo diz: A gente faz festa não porque a vida é fácil, é justamente o contrário. Haverá festa!

Não há nada como o Samba
Não há NADA como o Carnaval





segunda-feira, 11 de maio de 2020

Babá Alternativa Online

                                             (Saiu o sol, bora pro jardim!)


Pouco antes de Dublin entrar em quarentena eu havia chegado das férias no Brasil. Precisamente uma semana e meia depois. Cheguei com muitos planos e estava pronta pra começar a trabalhar com novas crianças. Havia me livrado de uma adolescente muito chata e agora seria um casal, configuração que até então eu não tinha encontrado por aqui. Já na entrevista a gente se deu super bem.

Jack, pisciano, torcedor do Liverpool, fã de Super Nintendo (preciso dizer mais?), e Ava, sonhadora, leitora assídua a louca do Harry Potter e Star Wars. Pirei! Curtimos muito pouco antes da pandemia começar e quando a vida foi mudando, nós também mudamos aos poucos. No começo brincávamos com uma certa distância e os abraços, tranças e lutinhas ficaram de lado. Depois eu só podia levá-los ao parque e nem na casa entrava mais, tudo por uma questão de precaução até porque Jack sofre de asma e o perigo era muito maior.

O confimanento então foi decretado. Vale dizer que os pais deles são muito legais e sempre foram cuidadosos comigo. Conversei com a mãe no começo de tudo, a situação toda foi bem estranha no mas como não tinha alternativa fomos nos adaptando. Muitas babás perderam os empregos, e eu também fiquei com receio de ficar desempregada. 

Conversamos mais vezes e combinamos que eu faria atividades via internet 3x por semana por duas horas. Entreter uma criança ao vivo ja é uma dureza, imagine entreter à distância! 
Botei as ideias no papel, sai pesquisando coisa, pergutando pros amigos, rascunhei algumas atividades, mas com a experiência que eu já tinha, sabia que na hora H muita coisa ia mudar. A minha sorte é que esses dois são realmente especiais e mesmo nos momentos de pouca energia, mesmice ou tédio a gente sempre conseguiu dar um jeito de arrancar umas risadas.

Eu os ensinei a jogar "Stop", fizemos atividade com colagem de flores e plantas, jogo da memória com objetos da sala e até histórinha da segunda guerra mundial rolou (excêntricos, não?) 
Eles nem sabem, mas me ajudam tanto, me revigoram e essa troca é tão boa que eu nem sei. 

Mesmo com a grana estando curta, com toda a bad que essa situação traz, mesmo assim e sem querer romantizar a pandemia, a vida vai se ajeitando e eu tenho muito orgulho desse trabalho que tenho desenvolvido. 

Agora uma fofoquinha besta: Preparar as atividades, pesquisar, inventar brincadeiras, ensinar palavras em português e curiosidades do Brasil é muito prazeroso!! 

É o projeto professora versão beta em ação!

                        (Leitura em nova perspectiva: debaixo da cadeira)
                                  



  


terça-feira, 3 de março de 2020

Janela pra quê?

Minha cabeça tá em SP, meu coração em SP, meus amigos em SP, meu trabalho em SP, meu chefe maravilhoso em SP, meu forró, minhas baladas, minhas escapadinhas, o meu café favorito, a livraria, a avenida, o boteco, a casa da amiga, a Praça, meus vizinhos. SP é o moedor de carne mais cruel por qual eu já passei, mas as raízes que tenho são de lá e é lá que me reconecto comigo mesma, com a identidade a qual criei e a de qual mais gosto. Cidade gigantesca, trânsito infernal, chuvas vorazes, SP é de uma força que me encanta. O ritmo, o barulho, é louco escrever e sentir que no meio do caos eu encontro comigo.

Corta pra mim sentada numa bancada de um apê em Dublin. Acabei de me mudar, não conheço ninguém, o quarto não tem janela e me dá pânico, todas as minhas coisas tão enfiadas dentro de um armário velho, tenho certeza que o cara do meu lado vai roncar, amanhã vai fazer frio e agora que voltei de SP tenho 100% de certeza que eu não pertenço a Dublin. Somos amigas distantes e é isso aí.
Sei tbm que preciso me esforçar pra (re) conectar com esse que será meu endereço por mais alguns meses e haja ansiedade e labuta. Não quero mais, caguei! Já falo inglês, não quero mais viajar, que se dane a Europa, quero paz no meu coração e seguir meu outro lado da vida. Sei também qual é o meu objetivo aqui e assim vou seguir, ainda que com uma angustia dentro do peito.

Mas se por um lado bate a angústia, de outro dá uma paz por saber que realizei esse sonho, que deu tudo certo e que agora em paz e com essa experiência vivida posso voltar por que eu quero!



Eu não sou daqui, Marinheiro só
eu não tenho amor, Marinheiro só
eu sou da bahia, Marinheiro só
de São Salvador, Marinheiro só

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Um grande exercício

De tudo que tenho aprendido essa lição é a que mais tem me dado trabalho. Parece um grande clichê, e talvez até seja mesmo, mas controlar a expectativa, e quiçá tentar viver sem ela, seja uma puta virada de chave. Falo sobre expectativa em geral, nas relações, nas amizades, nos acontecimentos e sobretudo na vida. Eu sempre fui a rainha da expectativa e por isso também sempre me frustrei. Primeiro porque não tem como criar a ideia de como uma coisa vai ser, e do jeito que vai ser. Segundo que de 20 pessoas que conheço, 18 tem um lado bem filha da puta e maldoso e aí é balde de água fria.

Quanto mais vivo, mais vejo como as pessoas são egoístas e é por isso que conto nos dedos quem é que vale a pena incluir. Em quase 09 anos de terapia me percebo menos ingênua, mas ainda muito tonta de acreditar na coerência das pessoas. E de uns tempos pra cá, apenas aceitar a situação e me modificar em relação à ela tem me aliviado e poupado várias sensações de dessabor. Sem cobrança, ligando o foda-se que me é apresentado.

Com o Whatssap então, nem se fala.
Acho uma falta de respeito retumbante ler uma mensagem e responder 5 dias depois.
E sabe quantos acham isso normal? Incontáveis.

Desencanei, mas desencanei real mermo, só por isso posso contar isso aqui.
E aprendi a me delegar menos e a me poupar mais.

O intercâmbio age tão profundamente que ainda não consigo explicar.
Mas consigo sentir.

Esse exercício sobre redução de expectativa é tão maravilhoso que agora tenho me adaptado com mais facilidade com as mudanças, e morar fora do país é uma mudança voraz.

O que eu posso controlar?
Eu mesma! Meus planos, meus sonhos, sem querer controlar o futuro, um pouquinho por vez.

Metas traçadas, ano já bombando, rascunhos aos montes e o mais importante: foco ajustado.

Agora é construir, construir e viver!











quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Percepções

Teresa, a matriarca da família Irish com quem moro atualmente é produtora da RTE (principal TV da Irlanda), tem 43 anos, é controladora, brava, mas muito justa. É mãezona de duas adolescentes chatas e tem uma paciência que me deixa intrigada. O pai das meninas mora nos EUA então a parada toda é com ela: levar ao médico, comprar roupas, comida, levar ao dentista, levar pra escola, buscar na casa de amigos, preparar a festa de aniversário, ouvir as irritações e choramingos de duas meninas com diferentes questões.

Todo santo dia Teresa acorda às 06h30, prepara o café, prepara o lanche das filhas e senta pra ler as notícias do jornal no celular enquanto ouve também as notícias do rádio. (Olar).

E eu só de olho.

Combinamos que às quartas eu fico cuidando das meninas e ela fica livre pra ir encontrar Mike, seu namorado. E todas as vezes antes de encontrá-lo Teresa fica ansiosa e animada, e ai se arruma, passa perfume e ajeita o cabelo, às vezes troca o sapato ou a camisa. Eu consigo sentir a ansiedade e alegria de quem está há poucos passos de encontrar a pessoa de quem se gosta, de poder beijar e abraçar, e tomar vinho e conversar sem medo e em paz sabendo que as filhas estão bem. Ela sempre fica assim e eu sempre sinto essa invejinha besta de quem não tem namorado, mas mais do que isso, a falta de sentir a sensação prazerosa que é a de se arrumar pra encontrar o namorado. Escolher a roupa, passar perfume, ajeitar o cabelo e chegar lacrando, ou chegar só confortável também. Isso é totalmente diferente da sensação de se arrumar pra uma festa ou pra um date, por exemplo, quando a gente tá indo encontrar a pessoa que a gente tá envolvida a parada é diferente, é muito melhor.

É muito bom poder conviver com uma família saudável emocionalmente falando. Nessa casa ninguém tem depressão então eu vejo como é repetitiva, necessária e árdua o papel da mãe, e das filhas, de fora consigo observar a configuração familiar. Todo dia eu limpo a cozinha, todo dia tem que cozinhar, lavar roupa, cuidar do cachorro, organizar o quarto, é uma parada muito cansativa, mas também tão boa e organizada, passa muita coisa pela minha cabeça. O papel da mulher saca? Jornada tripla, quádrupla, foda pra caramba.

Teresa faz terapia, as meninas também. Eu acho o máximo, pq às vezes rola alguma coisa que eu percebi (e claro, fiquei quieta), dai ela me diz que o terapeuta sinalizou a mesma coisa. (aiaiai 08 de terapia, alguma coisa eu ia aprender).

Como au pair tenho meus momentos de frustração, mas nada paga o prazer de viver e dormir na santa paz do meu quarto. Sei que não quero mais trabalhar com adolescente pq meu negócio é criança mermo. A gente tenta, erra e segue o baile, né?

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I'd like just to remind me what the guy last week told me: "You are so positive" and I don't think so, but could heard this from other one is so good for me! Maybe I've changed my mind? Is it Dublin fault?

I don't know. I'm so tired and I can't keep this ritme any more. For this reason sometimes I wonder if I came back for my last mood or if is a new one. Anyway, was really good. The perspective from strange  sometimes its a surprise.












sábado, 12 de outubro de 2019

Em Ashton

Faz um sábado lindo de outono, céu azul claro pintado de aquarela, solzinho, zero nuvem ou previsão de chuva ( por enquanto) eu tenho 40 minutos até começar o trabalho, mas como moro muito longe ou chego muito cedo ou super atrasada. Nesse meio tempo não tenho nada pra fazer e como o capitalismo e meu chefe Irish não ajudam em nada, eu que não vou começar mais cedo, por isso sentei de frente ao lago para pegar sol e escrever esse texto enquanto ignoro que meus dedos vão ficando duros do frio.
Está amanhecendo 7h30 e anoitecendo 18h30, as noitea tem ficado mais escuras e o clima invernal chegando com tudo, eles amam, ensaiam o Natal, nunca vi povo pra amar tanto uma data.
Vai vir o Halloween, vai vir o frio, as festas e finalmente o Carnaval. Eu tô me cuidando pra não sucumbir e deixar o frio me vencer e é engraçado todo o mito em torno dessa estação, que na verdade é só mais uma estação, mas é tanto estigmatizada que nem sei. Tem um charme também que envolve o inverno, tomar cafés e vinhos e etc, mas pra quem tem que trabalhar e acordar 6h30 o romantismo vai pro ralo no primeiro banho de banheira. Aproveito todo o sol que ainda tenho, vou aproveitar cada segundo dele como se fosse mesmo um presente.
Meu cabelo está tão lindo que é até um insulto fazer um coque e usar um chapeuzinho safado o dia todo. Depois saio com cheiro de comida, as mãos enrugadas de tanta água e pó de luva. Ai me resta comer algo enquanto aproveito as últimas horas do sábado e me recolho até chegar o domingo e começar tudo de novo. Tem sido assim já há algum tempo. Como disse o Tuca, uma hora a vida vira....
Aceitei essa parte da história e tô tentando tirar o máximo de aprendizado, além de estar com uma preguiça enorme de todo o putz putz envolvendo gringos, Brasilis e a mesma playlist de sempre.
Vou curtir o Bernard Shaw, fazer planos de viagens, memorizar phrasal verbs e assistir filme sem legenda.
É introspecção, ainda que eu ignore e teime que não.

#130

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Quase vento de outono

Esse ventinho gelado, conheço bem. Custo a acreditar que já é o fim do verão, ainda nesse mês. Quando na Inglaterra, agosto ainda era tempo quente e churrasco no quintal. Somente em outubro é que as coisas foram ficando mais frias. Acho que em 2016 foi um verão bem bom, e o desse ano quase não queimou. A Irlanda é muito mais fria, chove mais e é mais cinza também, agora eu já tenho total certeza disso.

As noites por aqui estão mais curtas e os dias já não amanhecem às 4h30. A cama quente teima em não me deixar levantar. São 4 semanas trabalhando sem nenhum day off, tal e qual tantos intercambistas e brasileiros.

Espero que essa marquinha saia do meu pulso, porque por mais que eu esteja curtindo muito a experiência de trabalhar como Deli Assistant, nenhum sanduíche e nenhuma pizza valem a cicatriz.

Estou rompendo a marca dos 6 meses. Em P'boro foi exatamente meio ano fora.
Com Dublin a história já é diferente, minha Dublinia que tanto me irrita, mas tanto amo. Essa semana senti tanta saudade do Brasil que quase me esqueci da zorra total que se encontra meu país.

Escutei samba de roda, rascunhei o plano do próximo Carnaval, falei com vários amigos, depois passei pra Marisa Monte e desaguei em Capoeira de Angola. Nem sempre faz sentido ouvir essas músicas andando no coração dessa cidade. O contexto é tão outro... Mas coração manda e eu faço.

O lado bom de trabalhar sem parar é não ter muito tempo pra pensar. Por vezes o pensamento me põe pra baixo. A solidão também enche o meu saco e nessas quase caio numa furada.

O plano é seguir firme e forte, ainda tem coisa pra caralho pra fazer aqui, e entre listas, sonhos e nostalgias vou me preparando pro outono fingindo desconhecer o inverno.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Sozinha em London


Estou sentada tomando um café e sentindo a brisa de mais uma manhã ensolarada em Dublin enquanto escrevo esse texto e sinto os últimos espasmos de London vibrando em mim. Foi tudo muito intenso, como sempre.

Passei o último final de semana na cidade que mais amo esse mundo. Assim como no Rio, a conexão que tenho com essa cidade é sem explicação. Estar lá sozinha foi um presente que há muito havia ensaiado.

Londres te suga, te põe no meio da zona, na potência e na força, ali não é brincadeira e até para um simples passeio há que estar muito atento. Só que eu sou natural de São Paulo, ta ligado? Só vamos, Londres.

Andar sozinha, conhecer um bairro novo, revisitar os lugares, curtir o show do Baiana System e voltar debaixo de chuva na madrugada pegando um ônibus X e fazendo amizade com sei lá quem. Era só o começo.

O metrô, sempre um espetáculo a parte, esse foi fácil e agora manjo mais ainda das baldeaçõoes e conexões. Impossível não imaginar que SP tinha tudo pra ser tão poderosa e viável quanto.

Em muitos momentos a minha ansiedade quase atrapalhou, parecia e muito com a sensação de quando o Tarado Ni Você vai sair. Só quem espera 365 dias por esse momento vai entender. E eu respirava fundo e tirava foto, e olhava ao redor mais uma vez imaginando como deve ser morar ali. E sem a magia do encantamento, com foco na realidade, eu pude ver tantas faces tristes, cansadas e sozinhas, porque a verdade da cidade grande nem sempre é glamourosa.

London, London. De infinitos cafés, atraentes Pubs, do poder à pobreza, do trânsito travado e de tantos clichês, acho que agora posso descansar de você. Você que sempre terá um lugar especial aqui nesse blog e em mim.

Quando entrei em Dublin novamente senti um gosto curioso de casa. Eu já amo Dublin e agora posseo me entregar.

See you soon, my dear!



quinta-feira, 11 de julho de 2019

Últimas

Totalmente adaptada: são 05 meses de Dublínia e a vida flui normalmente, 05 meses de uma vida inteira pela frente, só agora (novamente) o inglês tem ficado mais natural e fluente. Ontem conversando com a mãe de umas crianças, ela me elogiou e disse que estou falando muito bem! Receber esses elogios dão uma fé na vida que nem sei.

Tenho exercitado tanto a minha paciência que posso por assim dizer que já estou mais paciente com a vida. São 06 mulheres usando o mesmo banheiro e eu não tive nenhum surto mesmo com o tapete ensopado, mesmo com o cheiro de ovo cozido que infelizmente sou obrigada a sentir todos os dias, mesmo com os malditos roncos, que eu odeio pra caralho, agora eu aprendi a dormir com barulho de chuva nos meus ouvidos e é assim que tenho seguido.

A parte mais difícil desse começo de nova vida é encontrar pelo caminho pessoas que tem a ver comigo, a mesma conversa, os mesmos interesses e profundidade pra então poder nascer uma amizade. Fazer amigos em outro país é difícil pra caralho.

A parte mais maravilhosa é poder trabalhar, estudar, fazer exercício, chegar em casa e fazer uma comida e tudo isso caber num horário que não me esgota, que não me rouba e que ainda me permite deitar pra assistir alguma série. Sem falar no poder de compra que também é infinitamente mais fácil por aqui, além da facilidade para viajar para outro país.

Em um dos muitos trabalhos que tenho feito por aí, visitar Mary quinzenalmente é sempre muito gostoso. A casa dela fica longe da minha então tenho que pegar o trem e o sábado já começa diferente. Chegando lá são duas horas de uma faxina tranquila na casa da vovó Irish que exibe muitas fotos dos netos em sua geladeira. Enquanto vou limpando tudo vou imaginando como era a vida de Mary antigamente, ela que é tão ativa e saudável mesmo com a idade avançada, como será que era a vida em Dublin nos anos 60? Da última vez eu limpei o banheiro e foi como se tivesse sido transportada para a década de 70. Mobiliário antiiiigo, cortininhas floridas, mini sabonetes já gastos e empoeirados, minha vontade era pausar a faxina e chamar Mary pra conversar. Antes de eu ir embora ela sempre me oferece um café e são nesses preciosos 10 minutos finais que tento estreitar meus laços com a vovó. Comi um pedaço de pão natural, feito por ela, com uma camada de manteiga e geléia (que é assim que os Irlandeses raíz comem), tomei meu café e parti.

Ainda preciso escrever sobre os Downey, o trio de crianças que tenho cuidado, enquanto eles curtem as férias na Itália, eu descanso e reúno todas as energias possíveis para poder dar duro quando eles voltarem, a parada vai ser full time, férias de verão na Europa parte dois: que saudade eu estava!








segunda-feira, 6 de maio de 2019

E o inglês?

Fazer intercâmbio é viver em constante pressão e isso me causa mais ansiedade.
Você chega na Irlanda e fica na pressão pra tirar o GNIB (visto de estudante), sem poder gastar nenhum centavo porque precisa comprovar a grana no dia em que vai na imigração, depois é a pressão pra tirar o PPS (documento que permite que você trabalhe), depois é pressão pra arrumar um trabalho que te pague o mínimo pra você bancar o seu aluguel, e haja dedo pra enviar CV e haja perna pra ir entregá-lo pessoalmente e haja coragem pra entrar e pedir pra falar com o gerente.

Nisso, você convive com pessoas que tem dois empregos e entra na pressão de também arrumar dois trabalhos porque assim a grana vai ser melhor e vai dar pra viver com mais conforto e quem sabe finalmente começar a viajar. Aliás, viajar é uma outra pressão: "Estou aqui há 3 meses e ainda não fui pra nenhum outro lugar".

E enquanto tudo isso rola eis a pressão mor: E o inglês????

Tá falando inglês?
Tá escrevendo em inglês?
Já domina o idioma?
Meu deus 3 meses aqui e ainda confundo he com she.

E dá-lhe mais pressão: Um sorvete 5 Euros?? (5x5 = 30 reais?) nem pensar.
E volta pra sua garrafinha com água da torneira.

Os dias passam, algumas coisas andam, outras patinam, entra gente e sai gente da sua classe, é povo que volta pro Brasil, é povo que acabou de desembarcar.

"Gente, conheci um gato, será que vai rolar?" Não vou nem me aprofundar nesse assunto porque rende um texto só sobre isso: Será que ele gosta de mim? e se o cara for Irish, será que vamos casar? E se não rolar nada como é que eu  volto pro Brasil agora se eu gosto dele etccccccc.

Hoje é feriado, e eu tenho tempo de poder cozinhar um almoço gostosinho enquanto escuto alguma música do Caetano. Mas a minha cabeça não me dá um minuto de trégua e eu tô morrendo de medo de não conseguir fazer tudo isso ai que eu preciso: trabalhar, falar inglês, viajar, emagrecer, conquistar o boy, conhecer a Irlanda, ir pra escola e dormir bem.

Tá fácil a vida!
Por isso, quando eu aparecer no seu feed com um pint na mão e um lindo sorriso no rosto, e você quase ter um ataque de inveja, não se engane: você não sabe da missa a metade!