domingo, 17 de maio de 2015

Saudade e outros tons


Coloquei os discos pra tocar na ânsia de diminuir a saudade e acalmar meu coração inquieto. Que é uma forma de sentir você perto mesmo não estando. 

Fiquei olhando a vitrola linda e vermelha que ganhei de aniversário, viajei, lembrei dos forrós no quarto, das tardes quentes de verão. Nara cantava Opinião, pausei e coloquei Gil, ainda não tava do jeito que eu queria e mandei Chico. A saudade é uma coisa mucho loca mesmo. Vou engolindo o calendário, quero pular os dias e acordar só no dia que você bater no portão e dizer: Braza, cheguei! 

Quem foi que escreveu essa cena, essa sequência mista de cenas lindas e tristes ao mesmo tempo? Isso não tava no meu roteiro. A saudade é foda, é a forma de perceber que o sentimento existe mesmo a quilômetros de distância. Acho bonito, desconhecia essa maneira de gostar.

E se de um lado eu choro de outro eu gargalho, meu lado bom reforça a ideia de que "tá tudo bem, porque a vida é assim mesmo e o importante é viver tudo isso". É, tá tudo bem. 

O disco acabou, sobrou o silêncio no quarto. Levantei e coloquei um mais animado pra tocar, do jeito que você me ensinou. "O som não pode parar, Braza." 


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sobre o melhor vinagrete do mundo

Nessa vida já fiz muita coisa, sempre com a intensidade que herdei de berço. Já cruzei São Paulo indo longe, muito longe, mais precisamente no Jardim 9 de Julho, São Mateus, zona leste. Do Butantã até lá eram 50 minutos de carro ou 1h30 de ônibus e metrô. E foi assim por uns três meses. Quando me envolvo, me envolvo mesmo, que esse negócio de regular sentimento nunca foi comigo.

Era uma cidade completamente diferente da que eu vivia, interessante e viva. Recheada de bailes funk, pessoas na rua ouvindo som alto, churrasco no quintal, bares. Descrevendo assim parece igual a todos os bairros, mas era diferente. As pessoas meio desconfiadas, porém acolhedoras. A gente ia entrando pelas casas da vizinhança, comia uma torta aqui, tomava uma cerveja acolá. Meio interior, meio vila. Fui recebida sempre com muita simplicidade, e curiosa, captava tudo ao meu redor: as casas, os cheiros, os costumes, o córrego sujo que cortava o bairro, a escola quase abandonada. Sesc Itaquera era nosso vizinho e meu pensamento: "Eu tô muito longe da minha casa, mas quer saber? Nem ligo, tô feliz e é isso que importa". E assim seguiu esse mini-romance até virar o outono e chegar ao final.

Admiro muito quem não teme demonstrar sentimentos, quem consegue abrir a vida e compartilhar seu modo de viver. Naquela época fui muito feliz com pouco, um quarto e uns CDS de forrós antigos, rememorando a época do KVA, comendo batata frita por aí, correndo atrás de uma vaga pra guardar meu carro, tomando café da manhã feito por quem eu gostava, tem melhor?

E todos os domingos em que eu estive lá, eu disse todos, eu comi o melhor vinagrete que já provei na minha vida. A mãe dele, fofa e forte, me contava histórias de como era ser negra e morar na periferia nos anos 80. Enquanto eu ouvia, ela cozinhava, cortava os tomates, as cebolas e as salsinhas. Eu, em silêncio, agradecia a cada colherada.

Num dia de verão e sol a pino, o bafo quente do chão invadia a casa e nem mesmo o solo, que geralmente é fresco, dava conta do calor. No fundo da casa havia um poço e foi de lá que tiramos os baldes da água gelada pra sossegar o corpo.

Atualmente, trabalhando no Belém, diariamente pego o mesmo metrô que há anos atrás me levava para lá. Apesar de rápida essa história foi bonita e verdadeira. São nesses momentos que tenho orgulho de tudo que ja vivi, de quem conheci sem medo do que vinha pela frente. Não tive mais notícias deles, mas o vinagrete jamais saiu da minha cabeça (e do meu paladar).


Núcleo Base.


domingo, 12 de abril de 2015

Composição de capítulos


A vida é feita de instantes. Um churrasco com forró em vinil. Um bar tocando música brasileira. Uma gringa jantando na sala da minha casa. O vinho no Natal. Os blocos amados de Carnaval. Pequenos instantes que desenham e escrevem a história, aos poucos, constantemente. Não tenho o controle sobre a escrita dos outros, mas posso escolher se escrevo a minha a lápis, caneta ou giz de cera. E é preciso apontar, ou forçar a caneta quando ela insiste em não querer rabiscar. Há também a espera, a expectativa, planos, projetos, sonhos, que vão surgindo e compondo o desenho-texto.

Instantes. Momentos. A vida pulsando e o coração mandando o recado de que vai bem obrigado.
Não adianta antecipar acontecimentos ou sensações, sofrer à toa ou comemorar o que ainda nem se concretizou, É preciso paciência. Pro bolo assar, pra criança nascer, o salário entrar, o sol sair. E é justamente no ato do acontecimento que o corpo reage e a mente vai se dando conta do que aconteceu. 


Quando bate meia noite de 1 de janeiro, rola o primeiro beijo, o sim do processo seletivo, o não do pedido de casamento, a batida do carro, a música favorita na balada, o término, a viagem de férias, o primeiro choro do bebê, a vela apagada no aniversário, o ente querido que muda de plano, a bolsa do mestrado que saiu. 

E a ficha cai. 

Papel em branco a postos pra começar mais um capítulo. É difícil acalmar a mente e não tropeçar sozinha, tenho a mania de olhar pro horizonte e imaginar o que me espera daqui 40 anos, instantes longínquos impossíveis de decifrar. A sorte é já ter a consciência de que viver o agora vale mais do que adivinhações. 

Posso contar com a memória e relembrar capítulos lindos já vividos e me orgulhar desse livro que venho compondo sem medo, só dosando a ansiedade. Às vezes o que acontece não me faz sentido, busco inocentemente os porquês lineares sendo que a vida de linear não tem nada. Do começo ao fim tento aprender e aceitar a força de cada fortuna. Mas sinto que lá na frente, aconteça o que tiver de acontecer, as peças se encaixam, sempre.

Porque a colheita chega e a semeadura já foi feita!



quarta-feira, 1 de abril de 2015

(...)

saudade daquele cabelão, pontas loiras, liso e pesado.
saudade do que foi, e ainda vem...
minha mãe dizia: você vai cair!
e eu não parava até que caia... e só parava no chão.





quinta-feira, 26 de março de 2015

Falta

falta maturidade pra não encanar com coisa pouca
falta prática em ser cordial com as pessoas
falta paciência pra entrar por um ouvido e sair pelo outro
falta inteligência pra não ser transparente demais
falta experiência pra não clicar em: mal, bad, triste, horror, horrível, ódio, loucura, mal

falta tanto ainda

e sobra intensidade no furacão Katrina


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

desabafos

É quinta-feira pré Carnaval e meu coração parece explodir pq não há data no mundo que eu mais espere que não seja a Festa do Momo! não tô conseguindo me concentrar, nem trabalhar. Não haverá viagem mega especial, mas Carnaval é coisa séria e aonde quer que eu esteja faço de tudo pra ser melhor que todos!

mas...

..tem sempre um mas e parece que não podemos mesmo nos planejar pq num clique muda tudo.
e eu que me dediquei, fui sincera e verdadeira, fui gente boa, dei casa, colo e carinho recebi em troca algo que não esperava. Agora fica o gosto da decepção pra ser diluído.

sempre
sempre
sempre
isso

gostaria muito de entender porque as pessoas mentem. Pra mim a mentira é a pior coisa do mundo, pq vc faz uma pessoa acreditar numa coisa que sabe que não é verdade. não tenho vontade de ter contato, de falar, de nada, nada, nada. apenas desprezo e cuidado comigo pra não envergar de ódio no meu feriado mais amado.

amenizando estou (tentando)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Dias tristes

(...) Lembro de serem preparados em duas cozinhas simples, mas tinha sempre um ovinho mexido no café da manhã. Cada dia a receita era feita de um jeito diferente. Às vezes só temperos, outras com queijo misturado, ou só com cebola. Era um café da manhã humilde, mas desgustado com muito amor. Fossem dias de chuva, sol a pino ou em temperatura ambiente. Em prato de plástico eram servidos os ovos mexidos quentinhos. Que era uma forma de acolhida e sentir o coração do outro perto de mim. Antes do trabalho, da reunião, do passeio na praça, do banho no banheiro sem boxe. Agora na cozinha ampla e bonita não tem mais ovo. Não tem mais tempero, nem tomate de acompanhento. Não tem mais a companhia de outrora. Tem solidão, um ovo sem gosto e pra completar algumas lágrimas. Pra não esquecer que a vida também é feita de dias tristes. (...)